O Brasil caminha mais uma vez para a “eleição mais importante da nossa história” e o risco à democracia é invocado novamente como instrumento de mobilização eleitoral, especialmente contra a candidatura de Flávio Bolsonaro ao Planalto. A leitura é de que, novamente, temos uma ameaça democrática em curso, uma vitória de Flávio garantiria anistia aos golpistas de janeiro de 2023, em especial a Jair Bolsonaro. E como resposta a essa ameaça democrática, reaparece a narrativa de Lula como o “único que pode derrotar o fascismo” no Brasil.
Por conta dessa narrativa e tudo o que ela desperta, cabe refletir um pouco sobre essa história de voto útil, sobre o apelo que ele tem em um contexto como o brasileiro, mas também sobre uma outra campanha de voto útil, que aconteceu em 1932, na eleição presidencial da Alemanha, que opôs os “democratas” (as aspas farão sentido depois), reunidos em torno da candidatura de Paul von Hindenburg, aos nazistas, representados pela candidatura de Adolf Hitler.

Meses depois de vencer Hitler na eleição presidencial, Hindeburg o nomeia como Chanceller
1. Da revolução à defesa da democracia liberal

Imagem do Congresso do SPD em Munique, 1902
Para começar a contar essa história, precisamos voltar um pouco para o debate sobre a esquerda alemã, seu fortalecimento durante o período conhecido como o Segundo Reich e suas divisões no período da Primeira Guerra Mundial.
A trajetória do Partido Social-Democrata Alemão (SPD) é a história de como uma organização que nasceu com raízes marxistas e revolucionárias se transformou, ao longo de décadas, no principal pilar de sustentação da democracia liberal na Alemanha, uma democracia que, como veremos, foi tão frágil a ponto de pavimentar o caminho para uma experiência como o nazismo.
Para entender essa mudança, é preciso voltar ao século XIX, quando o partido foi fundado sob a influência de figuras como Karl Marx, Friedrich Engels, August Bebel e Wilhelm Liebknecht. Naquela época, o SPD tinha um discurso de ruptura com o sistema capitalista e a monarquia, mas a realidade política da Alemanha imperial (o Kaiserreich) começou a moldar o partido de uma forma diferente.
Embora o programa oficial do partido, como o de Erfurt em 1891, ainda falasse em revolução socialista como meta final, ele já continha uma divisão clara: de um lado estavam os objetivos revolucionários a longo prazo e, de outro, as reivindicações por reformas, como o sufrágio universal e melhores condições de trabalho. Com o passar do tempo, a prática do dia a dia focada nessas reformas começou a ganhar muito mais peso do que a teoria revolucionária. Esse fenômeno ficou conhecido como "revisionismo", tendo como um de seus grandes expoentes Eduard Bernstein, que argumentava que o capitalismo estava se adaptando, que algumas das previsões iniciais feitas por Marx não se confirmavam e que o socialismo seria alcançado através de vitórias parlamentares, e não necessariamente de uma insurreição violenta.
Outro fator crucial para essa moderação foi o imenso sucesso eleitoral e a burocratização do partido. No início do século XX, o SPD tornou-se o maior partido da Alemanha, com milhões de filiados, jornais próprios e uma estrutura gigantesca. Para manter essa máquina funcionando e proteger as conquistas dos trabalhadores, a liderança do partido — agora formada por administradores pragmáticos como Friedrich Ebert — passou a valorizar a ordem, a disciplina e a legalidade acima de tudo. Ebert, por exemplo, chegou a declarar que "odiava a revolução como ao pecado".

Friedrich Ebert, líder do SPD e primeiro presidente da Alemanha na República de Weimar.
O rompimento definitivo com o passado revolucionário aconteceu em dois momentos dramáticos: em 1914 e em 1918. Ao estourar a Primeira Guerra Mundial, o SPD abandonou o internacionalismo proletário e votou a favor dos créditos de guerra, unindo-se ao esforço nacional em uma política de "paz civil" com o governo imperial. Isso causou uma rachadura profunda na esquerda, levando à criação do USPD (socialistas independentes) e da Liga Espartaquista, que mantinham a chama revolucionária acesa.
Quando o Império Alemão colapsou após a derrota na guerra em 1918, o SPD assumiu o poder, mas não para fazer uma revolução socialista radical. Temendo que a Alemanha seguisse o caminho da Rússia bolchevique, Ebert e a direção social-democrata agiram como um "partido da ordem". Eles fizeram alianças estratégicas com as velhas elites que antes combatiam: o exército (Pacto Ebert-Groener) e os grandes industriais (Acordo Stinnes-Legien). O objetivo era garantir uma transição suave para uma república democrática parlamentar, mantendo a estrutura do Estado e a propriedade privada intactas.
Essa escolha teve um custo altíssimo para a unidade da esquerda. Para esmagar as revoltas de trabalhadores mais radicais em 1919, o governo social-democrata autorizou o uso de forças paramilitares de extrema-direita, os Freikorps. Foi nesse contexto que líderes revolucionários como Rosa Luxemburg e Karl Liebknecht foram capturados e assassinados, criando um sisma entre social-democratas e comunistas que nunca mais seria superado.
Assim, ao liderar a criação da República de Weimar e sua Constituição em 1919, o SPD consolidou sua transformação em um partido defensor da democracia liberal. Durante os anos 1920, eles foram o baluarte do sistema republicano contra os ataques da extrema-direita e da extrema-esquerda. O partido que um dia pregou a destruição do Estado burguês terminou sua trajetória na República de Weimar como o seu mais fiel guardião, lutando desesperadamente pelas instituições democráticas até ser finalmente banido e perseguido pelos nazistas em 1933.
2. A crise de legitimidade da República de Weimar
A República de Weimar enfrentou desde o seu nascimento uma profunda crise de legitimidade que impediu a consolidação de suas instituições. Diferente de outras democracias, ela não nasceu de uma vitória, mas das cinzas de uma derrota humilhante na Primeira Guerra Mundial e sob a sombra de uma revolução que dividiu a sociedade.

Uma das marcas mais graves dessa crise foi a forma deliberada como o alto-comando militar, liderado pelos generais Paul von Hindenburg e Erich Ludendorff, esquivou-se da responsabilidade pela derrota. Quando perceberam que a guerra estava militarmente perdida no final de 1918, os generais pressionaram pela criação de um governo civil parlamentar para que este negociasse o armistício. O objetivo era transferir o ônus da capitulação para os políticos democráticos.
Assim que a paz foi assinada, os militares e os defensores da antiga monarquia difundiram a "lenda da punhalada nas costas" (Dolchstoßlegende). Segundo essa narrativa falsa, o exército alemão só teria perdido a guerra porque foi traído internamente por inimigos internos: socialistas, judeus e democratas que organizaram greves e a revoltas no país. Essa manobra foi mortal para a República, pois convenceu grande parte da população de que o novo regime era fruto de uma traição nacional e que o Tratado de Versalhes era uma "paz ditada" aceita por políticos covardes. Essa narrativa da traição foi amplamente explorada posteriormente pelos nazistas.
Para além da questão militar, a questão econômica foi outro problema grave. A economia alemã saiu da guerra completamente exaurida. O conflito foi financiado por meio de empréstimos maciços e pela impressão de dinheiro, na expectativa de que as futuras conquistas territoriais pagassem a conta. Com a derrota, a Alemanha perdeu 13% de seu território, incluindo áreas industriais vitais, e teve de arcar com reparações de guerra astronômicas fixadas em 132 bilhões de marcos-ouro.
A incapacidade de pagar essas dívidas levou à ocupação da região industrial do Ruhr por tropas francesas e belgas em 1923, o que paralisou a produção alemã. O resultado de todo esse processo e de uma resposta insuficiente por parte do governo foi a hiperinflação de 1923, período em que o dinheiro perdia valor de hora em hora e o dólar chegou a valer trilhões de marcos. Essa catástrofe econômica destruiu as economias da classe média e a confiança na neutralidade da lei, criando uma sensação de que a vida era um jogo de azar e que o sistema republicano só trazia miséria.
Junto a isso, a vida política na República de Weimar foi marcada por uma instabilidade crônica e por explosões constantes de violência. Entre 1919 e 1933, houve 20 gabinetes diferentes, com uma duração média de apenas oito meses cada. O sistema de representação proporcional favorecia a fragmentação partidária, tornando quase impossível formar maiorias estáveis no Parlamento (Reichstag).
O país foi palco de revoltas sangrentas de ambos os lados do espectro político. Pela esquerda, o Levante Espartaquista em Berlim (1919) e a criação da República dos Conselhos na Baviera (1919) foram esmagados com extrema brutalidade por grupos paramilitares de direita (Freikorps) autorizados pelo próprio governo social-democrata. Pela direita, houve tentativas de golpe como o Putsch de Kapp (1920) e o Putsch da Cervejaria liderado por Adolf Hitler em Munique (1923).
Além das revoltas, o clima de "guerra civil" era alimentado por assassinatos políticos de figuras importantes e por batalhas de rua constantes entre esquadrões armados ligados aos partidos, como os camisas-pardas nazistas e a Frente Vermelha comunista. O uso excessivo do "Artigo 48" da Constituição, que permitia ao Presidente governar por decretos de emergência, acabou por minar o poder do Legislativo e acostumar a nação a soluções autoritárias. No final da década de 1920, a democracia já estava tão enfraquecida que muitos alemães, aterrorizados pelo caos, passaram a ansiar por um líder forte que restaurasse a ordem a qualquer custo.
3. As eleições presidenciais de 1932 e o voto útil em Hindenburg
Após o trauma da hiperinflação de 1923, a Alemanha viveu um período chamado de "Anos Dourados de Weimar". Esse "respiro" foi possível graças a reformas financeiras, como a criação do rentenmark, e a um fluxo maciço de capital estrangeiro, principalmente empréstimos de curto prazo vindos dos Estados Unidos através do Plano Dawes.
Durante esse tempo, a economia parecia ter se estabilizado e a cultura florescia. Contudo, essa prosperidade era frágil, pois a indústria alemã tornou-se perigosamente dependente desses créditos americanos para se modernizar. Politicamente, embora a democracia parecesse mais segura, ela nunca alcançou uma legitimidade profunda; os partidos que apoiavam a República permaneciam em uma minoria frágil no Parlamento, enquanto as velhas elites imperiais e militares continuavam a ocupar cargos de poder sem realmente aceitar o novo sistema.
O colapso da Bolsa de Nova York em 1929 foi o golpe fatal para essa estabilidade artificial. Com a retirada súbita dos fundos americanos, a economia alemã mergulhou em uma depressão profunda e veloz. O desemprego, que já era um problema estrutural, disparou para 6 milhões de pessoas em 1932, o que significava que quase um em cada três trabalhadores estava sem serviço.
Essa miséria em massa destruiu o moral da população e radicalizou o eleitorado. As pessoas passaram a ver a República como um sistema incapaz de gerar qualquer coisa além de desastre econômico. Nesse vácuo de esperança, o Partido Nazista cresceu de forma meteórica. Enquanto em 1928 eles eram uma força periférica com apenas 2,6% dos votos, em 1930 eles saltaram para 18,3%, projetando uma imagem de energia, juventude e ação contra o que chamavam de “sistema falido” de Weimar.
É nesse contexto de desespero que chegamos à eleição presidencial de 1932. O marechal Paul von Hindenburg, então com 84 anos, estava terminando seu mandato de sete anos. Hindenburg era a personificação da velha ordem prussiana, um herói de guerra monarquista que não tinha fé nas instituições democráticas e governava cada vez mais por decretos de emergência, ignorando o Parlamento.
No entanto, a polarização política tornou-se tão extrema que Hitler surgiu como o principal candidato da extrema-direita. Diante da ameaça real de uma vitória nazista, ocorreu uma inversão extraordinária: os social-democratas (SPD) e os sindicatos, que historicamente eram opositores de tudo o que Hindenburg representava, decidiram apoiá-lo.
A esquerda viu em Hindenburg o “mal menor” e a única figura com prestígio suficiente para deter Hitler. Em uma manobra desesperada para salvar a legalidade constitucional, a máquina do SPD entregou 8 milhões de votos ao velho marechal, transformando-o, ironicamente, no candidato dos defensores da República. Hindenburg venceu o segundo turno com 53% dos votos, mas ficou profundamente ressentido por depender do apoio de socialistas e católicos, o que o fazia parecer, aos seus olhos, o candidato da “esquerda e do clero”.
A vitória de Hindenburg não trouxe estabilidade. Pelo contrário, iniciou-se um período de intensas intrigas de bastidores no círculo íntimo do presidente. O chanceler Heinrich Brüning, conhecido como “chanceler da fome” devido às suas políticas de cortes severos, foi demitido logo após a eleição porque Hindenburg o considerava incapaz de conquistar o apoio dos nacionalistas de direita.
Seguiram-se os governos curtos e autoritários de Franz von Papen e do general Kurt von Schleicher. Papen, um aristocrata conservador, acreditava que a única maneira de dar base de massa a um governo autoritário era atrair os nazistas. Em 1932, a violência nas ruas entre camisas-pardas nazistas e comunistas atingiu níveis de guerra civil, e o Parlamento tornou-se ingovernável devido à obstrução sistemática desses dois grupos.
Finalmente, no início de 1933, os conservadores liderados por Papen convenceram Hindenburg de que Hitler deveria ser nomeado chanceler. Eles acreditavam piamente que poderiam controlar o líder nazista ao cercá-lo de ministros conservadores experientes em um gabinete de coalizão. Papen chegou a declarar com desdém: “Em dois meses, teremos apertado Hitler de tal forma que ele cederá”. Foi esse erro de cálculo fatal que levou Hitler à Chancelaria em 30 de janeiro de 1933, marcando o início do fim definitivo de qualquer vestígio democrático na Alemanha. No caso alemão, o candidato do voto útil em defesa da democracia acabou estendendo o tapete vermelho para a chegada dos nazistas ao poder e o desfecho histórico é amplamente conhecido.
Conclusão
A ideia com esse texto não é passar uma imagem que iguale o Brasil de hoje com a República de Weimar, mas trazer certos alertas importantes em relação à história, especialmente sobre como as crises democráticas devem ser lidas, especialmente por forças que buscam se apresentar como forças de transformação.
O primeiro alerta é o de que a democracia é como andar de bicicleta: se você não vai para a frente, você cai. O que isso significa? A abertura democrática permitida, dentro de certos marcos, pelo arranjo liberal deve ser tensionada ao máximo e deve ser disputada por projetos de avanço democrático, mesmo com resistências. Isso resulta em capacidade de mobilização popular e um programa político de democratização da sociedade que vai ser defendido em público. O mero refúgio no discurso de “defesa da democracia” é um grande problema se essa democracia oferece pouco ao seu cidadão, que já não consegue ver mais espaço de melhoria.
O segundo alerta, como um complemento do primeiro, é que o abandono de um programa mais avançado de mudanças em troca de acordos para manter a ordem só funciona em períodos de relativa estabilidade, quando há margem para a melhora da vida das pessoas, especialmente os mais pobres. Fora disso, o que temos é uma dinâmica em que o abandono desse programa de transformação resulta em um espectro político cada vez mais à direita, ainda mais se as forças da direita são as únicas capazes de apresentar alguma proposta de ruptura (independente se ela seja boa ou ruim).
Por fim, cabe destacar que a democracia liberal precisa ser entendida dentro de certos limites e que é preciso debater se ela consegue oferecer o que promete em regimes econômicos de concentração de propriedade e renda na mão de poucos e um controle político decorrente disso que impede que mudanças políticas e transformações possam ocorrer em direção a uma melhora de vida dos mais pobres.
Em um ano eleitoral em que a temática da democracia certamente vai voltar ao jogo, essas reflexões não podem ser diluídas em um discurso retórico que pode não encantar muitas pessoas, especialmente aqueles que mais sentem falta do que essa democracia pode fazer por eles.