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12 de abril de 2026

O TRABALHISMO NÃO É UMA CORRENTE “MODERADA”

Somos adversários de certa definição do trabalhismo como “centro-esquerda”, ou “corrente moderada”, com o qual seria possibilitado o “diálogo” devido a uma suposta “brandura” inata, conforme pensam em uníssono “comunistas” e “liberais”.

Por Alan Santana

Somos adversários de certa definição do trabalhismo como “centro-esquerda”, ou “corrente moderada”, com o qual seria possibilitado o “diálogo” devido a uma suposta “brandura” inata, conforme pensam em uníssono “comunistas” e “liberais”. Para além de situá-lo na infértil dicotomia eleitoral, ambos ignoram a tradição do trabalhismo na história brasileira como exitosa modalidade de um pensamento autóctone, desterrada por um golpe antinacional.

A bem da verdade, revestidos de demagógico intuito de aproximação, ambos consideram o trabalhismo como campo político passível de cooptação, como se a cultura política mais consequente para o Brasil do último século fosse ideologicamente frágil para os dias que correm e, como que magicamente, dispensável para a compreensão das atuais condições nacionais. Servira outrora como orientação da imponência nacional; hoje, servirá como campo de uma “esquerda institucional moderada”?

Das duas, uma: ou é oportunismo ou é miopia analítica. Admitimos uma terceira hipótese, em que a miopia na análise conduz ao oportunismo na prática. De todo modo, constituem equívocos grotescos.

Para os “comunistas”, seria o trabalhismo uma corrente ora desvinculada do Partido dos Trabalhadores (PT); portanto, carecente de um guia ideológico, diante do que se exibem, com particular fraseologia revolucionária, como aptos para orientar os jovens contra o “reformismo”, em direção à revolução socialista soviética do Brasil. Sua performance de radicalidade, divorciada da realidade nacional, mais nos parece caracterizar uma oposição amestrada à hegemonia petista, que precisa se aparentar como uma ‘via radical diversa’ da “esquerda dominante” para conformar uma “via controlada de radicalidade”, posto que não toca no problema fundamental brasileiro e é infensa à questão nacional. Não constitui seguramente a “alternativa revolucionária” que se autoproclama.

Se julgássemos úteis as categorias de “esquerda” e de “direita” para dissecar a trama política nacional, situaríamos os ditos comunistas “à esquerda” do PT, posição que não os faz propriamente “de esquerda”, no sentido da acepção “transformadora” que o termo supostamente encerra. Nada mais o são, mesmo porque recorrem, mais cedo ou mais tarde, à figura máxima do PT, o Presidente Luiz Inácio, quando naufraga sua canoa eleitoral.

Para os “liberais”, seria o trabalhismo uma corrente mansa, dócil, flexível, indiferente ou mesmo incapaz de empreender processos revolucionários, razão pela qual todo diálogo poderá ser mantido. Nesse polo figuram os elementos favoráveis ao servilismo aberto do Brasil à potência do Norte, que grassaram no âmbito da falência petista (ou, sob um ponto de vista mais acertado, do êxito petista, uma vez que, sendo errôneo o diagnóstico do PT, nos parece lícito afirmar que seu objetivo nunca fora solucionar os males nacionais, — conforme advertia Brizola, — sendo inevitáveis, e mesmo previstos, seus fracassos derradeiros, que fomentaram, por sua vez, o advento de uma corrente violentamente antinacional, a chamada “extrema-direita” ou “neoliberais”, apta para seduzir a massa popular exausta da gestão petista, mas que, sendo ávida defensora do apetite estrangeiro contra o Estado brasileiro, também conserva o atraso nacional com base na polarização teatral). Estes últimos ora se apresentam como correntes também “moderadas” no interior da oposição “à direita” de Lula, desvinculando-se do “bolsonarismo” de que são produtos, ora pretendem se valer perspicaz e unilateralmente do alcance obtido por locutores do chamado novo trabalhismo.

Observemos uma identidade de visões entre ambos: comunistas e neoliberais tencionam usufruir tão somente da aparente oposição do trabalhismo ao PT, aliciando a independência programática com que se apresenta o novo trabalhismo para adesão a seu projeto, seja “comunista”, seja “neoliberal”; para os primeiros, o trabalhismo é só "um pouco liberal" ou "um pouco burguês”; para os segundos, é só "um pouco radical" ou "moderado”.

Enganam-se ambos em suas caracterizações estéreis. Dissemos que o trabalhismo constitui uma “aparente oposição ao PT”, pois que não é uma corrente mecanicamente oposta ao PT no sentido de que se lhe contrapõe para “tomar” seu posto como gestor de turno do país; o trabalhismo quer transformar o Brasil em uma nação altiva e independente, não apenas jogar o embaralhado truco eleitoral.

Manifestação de orientação nacionalista, e hostil somente aos problemas fundamentais de uma nação entravada por interesses externos, o trabalhismo confronta fundamentalmente o atraso brasileiro — o que acaba por levar, por tabela, à confrontação com gestores antinacionais, quer “democráticos”, quer “autocráticos”, ambos escudeiros de interesses que não poderiam reinar, no Brasil, sem a sua atuação como anti-Nação. Importa reforçar que o trabalhismo não se opõe meramente eleitoralmente àqueles gestores, pois que não pretende ser mais um ente docilizado e acomodado à ordem semicolonial.

Se o PT constitui polo de “gestão pacífica” da presente situação nacional, haverá de prestar contas não ao trabalhismo, mas ao movimento real da nação, que há muito já demonstra o conteúdo concreto dos polos eleitorais como forças de legitimação, e não de modificação, da ordem, e que tratará de reservá-lo ao posto da infâmia cômoda na história brasileira.

- A hipótese da moderação

A qualificação do trabalhismo como uma corrente de “esquerda moderada” somente encontraria sentido hipotético ao se referir ao Partido Democrático Trabalhista (PDT) após a morte de Leonel Brizola, fato que converteu paulatinamente aquele partido em satélite do PT; ainda assim, este PDT já não é mais aquele partido trabalhista, que julgava recobrar o espólio do histórico Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) de antes de 1964. A hipótese da moderação que, portanto, supostamente viria a calhar apenas ao PDT, perde também justeza, porque antes quem perdera conteúdo trabalhista fora o próprio PDT, tornando-se menos nacionalista, embora muitos filiados continuam a sê-lo, do que “social-liberal”.

Agora, no que concerne ao nacionalismo trabalhista em refundação, que surge em demarcada oposição à dinâmica da polarização eleitoral de interesses antinacionais, não devendo satisfação à dita esquerda, tampouco prestando continência à dita direita, resulta inaplicável a hipótese da moderação, que pretende fazer do trabalhismo uma corrente caudatária da “esquerda institucional”.

Não que os novos trabalhistas não se disponham ao diálogo com amplas correntes em voga na política brasileira; dizê-lo também seria errôneo, haja vista a notória e inatacável participação de trabalhistas (e de nacionalistas lato sensu ) na arena pública, quer em fóruns e debates, quer em programas abertos.

Ocorre que o trabalhismo não configura, tampouco deve configurar, uma corrente “moderada” que, facilmente “domesticável”, transige em rebaixar suas teses para satisfazer a gregos e a troianos. Estes acertam ao constatar no trabalhismo uma corrente simpática à convergência nacional, antipática que se faz diante das artificiais divisões expressas “à esquerda” e “à direita”; equivocam-se ao ver no objetivo de unidade nacional uma “mansidão” ou certa debilidade doutrinária.

Como ponto de vista nacionalista, o trabalhismo trata com diversas escolas de pensamento, mas submete-se apenas às aspirações da coesão nacional, não a deformações dos agentes do divisionismo “à esquerda” e “à direita”. O diálogo franco que deve estabelecer com diversos grupos nunca deve suplantar a verdade de um programa nacional. Deve ouvir, é certo, o que outras correntes têm honestamente a enunciar, e mesmo a opor, a propósito de seu roteiro nacionalista, mas não deve abdicar da imponência de suas convicções e da autoridade de seus princípios irremediavelmente soberanistas.

A “moderação” nunca é inócua, pois que sempre caracteriza redução programática e submissão de objetivos, levando à ocupação do vácuo deixado por outra perspectiva política. Se nosso programa malogra em ser nacionalista é porque foi exitoso em não sê-lo. Se não fortalecermos o papel do Estado na direção da economia nacional, esta sucumbirá ante as investidas do capital forâneo. Não existindo vácuo na natureza, tampouco o existe na política.

Como elemento de decifração do enigma nacional, o trabalhismo configura não um apêndice dos polos da querela eleitoral, mas a solução genuinamente “radical”, na medida em que visa arrancar as raízes semicoloniais do atraso nacional sem submissões acríticas a modelos exógenos.