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26 de abril de 2026

"Parabéns, Virgínia!"

Como a "democracia" dos EUA se transformou em um processo em que os políticos escolhem os eleitores e não o contrário

Por Frederico Krepe

Notas contra o ruído

Frederico Krepe


No último dia 21 de abril, eu estava navegando pelo Twitter (nunca vou chamar de “X”) quando me deparei com uma postagem de Barack Obama parabenizando a Virgínia. De início, tomei um susto. Não entendi exatamente do que se tratava, li o tweet completo e logo me lembrei da tradução automática introduzida recentemente na plataforma. Na verdade, Obama parabenizava a população da Virgínia pela votação que aprovou o novo redesenho dos distritos eleitorais. O episódio, porém, está longe de ser algo trivial. Trata-se de mais um capítulo de um processo de deterioração democrática já bastante avançado nos Estados Unidos, país frequentemente apresentado como a “maior democracia do mundo”, ou ao menos como uma de suas principais referências históricas.

A Virgínia é um estado onde a disputa política costuma ser tão acirrada que eleições presidenciais recentes foram decididas por margens de um único dígito. Além disso, o estado possui 11 cadeiras na Câmara dos Representantes dos Estados Unidos, equivalente. Até pouco tempo, essa representação era relativamente equilibrada: seis assentos ocupados por democratas e cinco por republicanos.

No entanto, no referendo realizado em 21 de abril, uma mudança importante alterou as regras do jogo e transformou o mapa eleitoral do estado em instrumento direto de disputa política. A votação aprovou um projeto que retira temporariamente o poder de desenhar os distritos eleitorais das mãos de uma comissão civil independente e transfere essa competência para os políticos da Assembleia Geral da Virgínia (equivalente às Assembleias Legislativs no Brasil), atualmente controlada pelo Partido Democrata. Essa regra valeria até a realização de um novo censo, previsto para 2030.

A justificativa oficial apresentada para a medida foi a necessidade de criar uma resposta emergencial a práticas semelhantes adotadas pelo Partido Republicano em outros estados, especialmente no Texas. Em seguida, o resultado foi rapidamente sancionado pela governadora democrata Abigail Spanberger, permitindo a implementação de um novo mapa eleitoral que redesenha profundamente as fronteiras internas da Virgínia.

Com as novas linhas traçadas pelos legisladores, os democratas passam a ser favoritos em 10 dos 11 distritos, restando apenas uma cadeira considerada segura para os republicanos. Desses novos distritos, oito seriam claramente democratas, enquanto outros dois tenderiam fortemente aos democratas, ainda que possam apresentar alguma competitividade. Na prática, isso cria uma vantagem potencial de 10 a 1 dentro de um estado que antes apresentava uma divisão de 6 a 5.

E é justamente aí que surge a pergunta central: como é possível transformar uma divisão relativamente equilibrada em um domínio quase absoluto sem criar novos eleitores? A resposta está no desenho dos distritos. Ao reorganizar fronteiras, concentra-se o voto adversário em poucos lugares e espalha-se o próprio eleitorado de forma eficiente pelo restante do mapa.

Os criadores desse novo mapa fatiaram subúrbios densamente povoados, onde os democratas possuem maioria esmagadora, e redistribuíram esses eleitores de forma pulverizada por cinco distritos que avançam por mais de 160 quilômetros em direção a áreas rurais tradicionalmente conservadoras. Na prática, a massa de votos urbanos e suburbanos passa a neutralizar o peso eleitoral das comunidades rurais, reduzindo drasticamente a capacidade de representação republicana nessas regiões. O que antes poderia ser um distrito competitivo ou inclinado aos conservadores se transforma em um território no qual o voto rural se torna minoritário diante da incorporação de grandes bolsões democratas.

Visualmente, esse tipo de manobra produz algumas estranhezas geográficas evidentes para qualquer observador externo. Surgem distritos longos, estreitos e recortados, conectando áreas sem continuidade social clara, unindo cidades e comunidades com pouca relação entre si, apenas porque isso favorece determinado resultado eleitoral. O mapa deixa de refletir comunidades reais e passa a refletir cálculos partidários. É justamente por isso que debates sobre redistritamento costumam ser tão explosivos nos Estados Unidos. Porque, muitas vezes, a disputa decisiva não ocorre apenas no dia da eleição, mas antes dela, no momento em que se desenham as linhas do mapa.

Novos distrios da Virginia. Fonte: The New York Times

O exemplo mais extremo desse novo desenho é o 7°distrito da Virgínia. Ele se contorce pelo território de maneira tão antinatural, avançando em diferentes direções, estreitando-se em alguns pontos e se alargando em outros, que a imprensa e diversos analistas passaram comparar com um par de garras de lagosta. Em vez de um recorte minimamente coerente do ponto de vista geográfico ou comunitário, o que aparece é uma figura moldada por cálculos eleitorais precisos.

Esse processo de redesenho dos distritos é o gerrymandering no seu estado da arte. Não são mais os eleitores que escolhem os políticos, mas os políticos que desenham mapas para escolher os seus eleitores. O que aconteceu na Virgínia não é um caso isolado. Trata-se do estopim mais recente de uma crise política que os Estados Unidos vêm atravessando por meio da manipulação de mapas eleitorais nos estados, dentro de um problema mais amplo de deterioração democrática recente.

Para entender como esses mapas excêntricos são possíveis e perfeitamente legais, é preciso voltar no tempo mais de duzentos anos e investigar a origem desse processo. A prática ganha rosto e nome no ano de 1812, no estado de Massachusetts. Naquele momento, quem governava o estado era Elbridge Gerry, que cedeu aos interesses de seu partido na época, o Partido Democrata-Republicano, e assinou uma lei de redistritamento desenhada milimetricamente para enfraquecer os adversários do Partido Federalista.

Elbridge Gerry

Para garantir a manutenção do poder, os legisladores concentraram eleitores rivais em poucos distritos e espalharam seus próprios apoiadores de forma a assegurar vitórias confortáveis em outras regiões. O resultado desse redesenho, especialmente na área do condado de Essex, foi um distrito com contornos tão absurdos que chamou a atenção do jornal local Boston Gazette. Em uma charge que se tornou icônica, um artista adicionou garras, asas de dragão e cabeça de monstro ao formato do mapa, destacando sua semelhança com uma salamandra. A imprensa então combinou o sobrenome do governador Gerry com a palavra salamander (Salamandra em inglês). Assim nascia o termo gerrymandering, usado até hoje para designar a manipulação partidária dos mapas eleitorais.

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Charge do Boston Gazette

Mas como funciona, na prática, essa trapaça eleitoral legalizada? A mecânica desse processo opera essencialmente por meio de duas práticas principais. A primeira é o chamado packing, ou empacotamento. Essa técnica consiste em isolar e concentrar o maior número possível de eleitores da oposição em um ou dois distritos. A oposição vence nesses locais com enorme facilidade, recebendo 85% ou 90% dos votos. E esse é justamente o objetivo: ao ganhar de lavada em poucos lugares, esses eleitores desperdiçam milhares de votos excedentes, esgotando seu capital político e reduzindo sua influência no restante do mapa estadual. A segunda tática funciona por meio da fragmentação dos eleitores, conhecida como cracking. Nesse caso, o redesenho eleitoral vai picotando distritos e comunidades que possuem forte concentração de votos em determinado grupo ou partido, espalhando esses eleitores por vários distritos diferentes.

O resultado é direto. Um grupo populacional que poderia atuar como uma força unida e robusta, capaz de eleger determinada candidatura, é transformado em pequenas minorias dispersas em diversos distritos. Em vez de representar peso político real, torna-se uma soma de núcleos estatisticamente irrelevantes, incapazes de eleger qualquer representante.

Se no século XIX, na época do governador Elbridge Gerry, o redesenho dos distritos era feito com base na intuição, no lápis, em réguas e em mapas de papel, hoje essa prática evoluiu para uma arma tecnológica muito mais sofisticada. Desde a revolução dos dados na década de 2010, estrategistas políticos passaram a utilizar algoritmos avançados, big data e também inteligência artificial. Já não se mapeiam apenas bairros ou cidades inteiras. Os softwares modernos rastreiam comportamento eleitoral por rua, quarteirão e até prédio por prédio.

Trata-se de uma engenharia política tão precisa que ela contribui para extirpar parte da incerteza do processo democrático. Em vez de disputar votos em terreno aberto, busca-se desenhar distritos nos quais o resultado se torne previsível antes mesmo do início da campanha. Para se ter noção da gravidade disso, no ano de 2020 apenas 7,5% das cadeiras da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos eram de fato competitivas. Nos outros 92,5%, o jogo já estava praticamente resolvido antes de o primeiro eleitor sair de casa, porque esses distritos já apresentavam, com segurança, maioria republicana ou democrata.

A evolução tecnológica do gerrymandering já era considerável, mas o que a política dos Estados Unidos passou a presenciar recentemente foi uma quebra de regras não escritas que organizaram o sistema por décadas. Alguns especialistas classificaram esse momento como uma espécie de corrida armamentista do redistritamento eleitoral.

Para entender a gravidade da situação, devemos destacar que, por mais de seis décadas, existiu nos Estados Unidos uma tradição segundo a qual os mapas distritais só deveriam ser redesenhados uma vez a cada dez anos, logo após a divulgação do censo populacional. Alterar essas linhas no meio do ciclo era tratado como tabu, visto quase como um ato de deterioração autocrática. De fato, essa prática foi rara e apareceu poucas vezes nas últimas cinco décadas.

Mas o temor de perder o controle do Congresso nas eleições de 2026 levou esse limite a ser rompido. O estopim dessa guerra foi aceso no Texas, no verão de 2025. Diante de pesquisas eleitorais que indicavam a derrota nas midterms (eleições de meio de mandato que renovam o Congresso e parte do Senado), a Casa Branca e Donald Trump pressionaram diretamente o governador Greg Abbott para garantir que a Câmara dos Representantes dos Estados Unidos não caísse nas mãos dos democratas.

Usando como pretexto uma notificação do Departamento de Justiça, o Texas convocou uma sessão legislativa de emergência para redesenhar mapas aprovados em 2021. Em seguida, os legisladores texanos aprovaram uma lei que fragmentou grandes centros urbanos e áreas minoritárias, especialmente nos arredores de Dallas e Houston, moldando 30 distritos favoráveis aos republicanos e apenas 8 aos democratas. Na prática, criaram artificialmente cinco novos assentos seguros para o Partido Republicano de uma só vez.

Em resposta, o Partido Democrata concluiu que não reagir equivaleria a um desarmamento unilateral. A retaliação veio da Califórnia, liderada pelo governador Gavin Newsom, por meio do que ficou conhecido como Proposição 50. A Califórnia se orgulhava de possuir uma comissão independente de cidadãos, criada justamente para impedir que políticos desenhassem seus próprios mapas. Mas, em nome da sobrevivência partidária, os democratas fizeram o impensável. Em novembro de 2025, um referendo aprovou a Proposição 50, medida que destituiu a comissão independente e devolveu o poder de redesenhar os mapas diretamente à Assembleia Estadual, onde os democratas possuem maioria. A missão era simples: criar cinco novas cadeiras democratas para neutralizar o redesenho feito no Texas.

Esses dois movimentos abriram as portas para novas ofensivas. Legislaturas estaduais iniciaram um efeito dominó que alcançou estados como Flórida, Carolina do Norte, Missouri, Maryland, Washington e, mais recentemente, o caso da Virgínia no plebiscito de 21 de abril.

Como foi possível chegar a esse ponto, em que partidos simplesmente redesenham o mapa ao seu bel-prazer, rompem tradições que existiam há décadas e passam a escolher os eleitores de acordo com seus próprios interesses políticos? A resposta repousa em uma decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos.

Em junho de 2019, a Corte julgou o caso Rucho v. Common Cause, que consolidou duas disputas legais diferentes envolvendo mapas eleitorais marcados por distorções extremas. O primeiro caso envolvia a Carolina do Norte, onde eleitores democratas processaram o estado alegando que o mapa desenhado por uma legislatura de maioria republicana havia sido construído especificamente para diluir o poder de voto democrata. O segundo envolvia Maryland, onde eleitores republicanos acusaram o estado de manipular um distrito de forma estratégica para garantir a derrota de um candidato republicano por meio de um mapa elaborado sob controle democrata.

Em ambos os casos, tribunais de instâncias inferiores haviam concluído que os mapas eram inconstitucionais. Os estados recorreram então à Suprema Corte, e a decisão acabou seguindo nitidamente as linhas ideológicas da própria composição do tribunal. Os cinco juízes conservadores formaram maioria, enquanto os quatro juízes liberais divergiram. A opinião vencedora sustentou que, embora o gerrymandering partidário seja incompatível com princípios democráticos, a Constituição dos Estados Unidos não delega aos tribunais federais a tarefa de resolver esse problema. O Chefe de Justiça John Roberts (equivalente ao presidente do STF no Brasil) argumentou que não existiria um padrão judicialmente administrável e objetivamente discernível para definir quando a influência política no desenho distrital teria ultrapassado o limite aceitável.

Segundo esse entendimento, a própria Constituição deixaria o desenho dos distritos sob responsabilidade das legislaturas estaduais, com eventual supervisão do Congresso. Portanto, para a maioria da Corte, uma intervenção judicial federal significaria interferir indevidamente em uma função essencialmente política e legislativa.

Na prática, isso funcionou como uma carta branca aos políticos estaduais. A partir dali, eles passaram a poder distorcer mapas eleitorais sem temor de intervenção da Justiça Federal. Mas a consequência dessa decisão é ainda mais grave, porque ela criou um escudo institucional perfeito para ataques indiretos ao direito de voto das minorias.

A legislação de direitos civis americana de 1965 proíbe de forma estrita o gerrymandering racial, ou seja, a manipulação de distritos com o objetivo de diluir votos com base na cor da pele. Em tese, isso impediria que populações negras, latinas ou outras minorias fossem politicamente enfraquecidas por meio do desenho dos mapas eleitorais. O problema é que, nos Estados Unidos, etnia e preferência partidária caminham frequentemente lado a lado. Há uma correlação elevada entre pertencimento a grupos minoritários e apoio ao Partido Democrata. Aproveitando esse sinal verde aberto pela decisão de 2019, legislaturas estaduais passaram a enfraquecer de forma agressiva o peso eleitoral dessas populações por meio do gerrymandering partidário.

Quando essas práticas chegam à Justiça, a defesa costuma ser simples: não se estaria atacando negros ou latinos, mas apenas eleitores democratas. Como a Suprema Corte dos Estados Unidos decidiu em 2019 que prejudicar adversários políticos por meio do desenho distrital é matéria permitida ao campo político, o gerrymandering partidário acabou se convertendo em um disfarce para formas de racismo institucional e de supressão indireta do direito ao voto das minorias.

Isso tudo se soma a um processo mais amplo de captura da política pelo dinheiro, dinâmica que se intensificou nos últimos anos e da qual a própria presidência de Donald Trump aparece como um dos exemplos mais visíveis. O resultado é um quadro avançado de erosão democrática. Mesmo em uma democracia historicamente combalida, e muitas vezes mais aparente do que plenamente substantiva, até esse elemento aparente começa a sair de cena. Vai se tornando cada vez mais explícito que, na prática, o direito ao voto das pessoas não é respeitado de forma plena nem igualitária.

O controle político passa a ser exercido, em larga medida, por quem possui poder econômico, capacidade de financiamento e meios de intervir no debate público por meio da renda e da influência. E estes estão associados a políticos que trabalham cada vez mais para o poder financeiro. Em vez de uma arena fundada na igualdade cívica, consolida-se um processo no qual o peso político acompanha a concentração material de recursos. O que emerge desse cenário é uma estrutura cada vez mais próxima de uma oligarquia e cada vez menos identificável, de forma clara, como uma democracia efetiva.