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1 de maio de 2026

As Contradições Insuperáveis do Índice de Liberdade Econômica

Como o próprio Índice de Liberdade Econômica desmente os seus defensores

Por Frederico Krepe

Notas contra o ruído

Frederico Krepe


Imagine a seguinte situação: a China, que vem ganhando cada vez mais espaço econômico no mundo, decide ampliar também a sua projeção cultural e ideológica. Para isso, ela cria uma fundação diretamente ligada ao Partido Comunista Chinês, com o objetivo de formular e divulgar um “índice de prosperidade global”. Esse índice reuniria diversos critérios supostamente importantes para medir o grau de sucesso e desenvolvimento das nações.

No entanto, ao analisar o ranking final publicado por essa fundação, você notaria um padrão muito curioso: a própria China e os países que adotam políticas econômicas semelhantes às que ela quer promover no mundo apareceriam sempre muito bem posicionados, dominando as primeiras colocações. A mensagem embutida nos números seria claríssima: a prosperidade é o resultado direto do caminho que esses países escolheram seguir. Diante desse cenário, eu te faço uma pergunta honesta: você acreditaria nos resultados desse índice?

Provavelmente não. E o motivo para a sua desconfiança seria muito simples: você perceberia de imediato que se trata de uma ferramenta carregada ideologicamente, construída sob medida para confirmar e validar uma visão de mundo muito específica. Mas, se somos tão céticos e vacinados contra esse tipo de manobra no nosso exemplo hipotético, eu levanto uma segunda questão fundamental: então por que tanta gente acredita cegamente no Índice de Liberdade Econômica?

Essa reflexão é urgente por causa da forma constante com que esse ranking é utilizado no debate público. Um excelente exemplo disso pôde ser visto recentemente, durante a participação do Elias Jabbour no “20 contra 1” no canal da Spectrum. No primeiro bloco, a fala do Elias girava em torno do argumento de que o livre mercado, no sentido de livre comércio entre os países, não é o fator que gera desenvolvimento. Imediatamente, o primeiro debatedor que sentou para confrontá-lo sacou o Índice de Liberdade Econômica como resposta.

O que chama a atenção é a forma como o índice é instrumentalizado: ele é apresentado na discussão como se fosse dotado de uma autoridade técnica inquestionável. O argumento utilizado por quem o defende é que, como os países hoje desenvolvidos possuem as maiores pontuações nesse índice, isso funcionaria como uma “prova objetiva” de que essas nações se desenvolveram justamente por terem adotado medidas liberais.

Ou seja, na prática, o ranking é empunhado como uma arma argumentativa para refutar qualquer visão dissonante e reforçar a narrativa de que o desenvolvimento de um país e a sua “liberdade econômica” caminham necessariamente lado a lado. No entanto, ao aceitarmos esse índice como um instrumento de análise, caímos na mesma armadilha da nossa hipotética fundação chinesa, ignorando que os números podem estar vestindo uma roupagem técnica para esconder um forte viés ideológico.

A Maquiagem Científica: O que é o índice e quem está por trás dele

Para entender por que o Índice de Liberdade Econômica é tão falho, o primeiro passo é olhar para quem o fabrica. Falar de ciência e dados exige entender a fonte original das informações. E aqui nos deparamos com um fato relevante: este ranking não é elaborado por uma universidade, um consórcio global de cientistas independentes ou alguma instituição internacional. Ele é produzido pela The Heritage Foundation.

Caso você não conheça, a The Heritage Foundation é uma organização historicamente associada ao Partido Republicano dos Estados Unidos. Ela é vinculada a ideias conservadoras, posições de direita e, principalmente, a uma agenda de liberalismo econômico bastante radical.

The Fall of the Heritage Foundation and the Death of Republican Ideas - The  Atlantic

Isso significa que o índice já nasce com um propósito. Ele pretende classificar os países entre “melhores e piores” ou “mais livres e menos livres” a partir de uma instituição que possui interesses políticos muito bem definidos e uma orientação ideológica claríssima. Os critérios adotados não surgem de uma neutralidade técnica, mas refletem exatamente a visão de mundo que essa fundação deseja promover. Na prática, estamos diante de uma régua construída para premiar nações que seguem o receituário liberal e punir aquelas que adotam caminhos econômicos diferentes.

Apesar desse forte viés, o índice consegue convencer muita gente porque utiliza uma estrutura que parece técnica e científica. Eles avaliam 12 critérios, atribuem uma nota de 0 a 100 para cada um deles e, no final, calculam a pontuação do país através de uma média aritmética simples. Esses 12 critérios são agrupados em quatro grandes categorias:

  1. Estado de Direito: Tenta medir a proteção à propriedade privada, a eficiência do Judiciário e a integridade do governo (focando em corrupção);

  2. Tamanho do Estado: Avalia o “peso” do governo na economia, observando a carga tributária (impostos), o tamanho do gasto público em relação ao PIB e a saúde fiscal do país;

  3. Eficiência Regulatória: Mede o impacto da burocracia sobre os negócios. Aqui entra a “liberdade empresarial” (tempo e custo para abrir/fechar empresas), a “liberdade trabalhista” (rigidez de leis, salário mínimo, facilidade de demissão) e a “liberdade monetária” (que mede a inflação e a ausência de controle de preços);

  4. Abertura de Mercados: Avalia a facilidade de entrada e saída de capitais e bens, incluindo a ausência de barreiras tarifárias (liberdade comercial), restrições a capital estrangeiro (liberdade de investimento) e a independência do sistema bancário (liberdade financeira).

É aqui que mora a grande esperteza na forma como esse ranking é divulgado. Ao apresentar notas exatas, rankings bem estruturados, gráficos e categorias, o índice se reveste de uma estética de seriedade institucional. Isso gera a ilusão de que estamos diante de um cálculo matemático neutro, quase incontestável, como se fosse apenas a constatação fria dos fatos. Mas não se engane: a ideologia vem embalada em linguagem técnica. Essa maquiagem científica tem uma função política muito clara, que é dar credibilidade para uma agenda específica e fazer com que o viés passe disfarçado de ciência neutra.

O maior perigo dessa abordagem é que ela te obriga a assumir pressupostos ideológicos sem que você perceba. O índice empacota a ideia de que “liberdade política”, “democracia” e “fortalecimento institucional” são sinônimos absolutos de “liberdade econômica”. E a história nos mostra que isso não é verdade. É perfeitamente possível combinar políticas de liberalismo econômico radical com regimes altamente autoritários e violentos. O grande exemplo histórico é a ditadura de Augusto Pinochet no Chile, que serviu como o grande laboratório para políticas neoliberais. Tivemos também a Argentina, que adotou políticas econômicas liberais durante suas últimas ditaduras, e o Peru, que promoveu um casamento entre neoliberalismo e autoritarismo na ditadura de Alberto Fujimori. Troxe alguns exemplos mais próximos, mas há vários outros que podem ser invocados no debate.

Em resumo, ao usar a autoridade simbólica da técnica, o ranking da Heritage Foundation não está apenas medindo o mundo; ele está tentando legitimar a sua própria visão de como o mundo deveria ser.

O grande truque

Para entender como o Índice de Liberdade Econômica distorce a realidade, precisamos olhar para a forma como ele é desenhado. Na prática, a principal “malandragem” desse ranking é que ele foi estruturado justamente para capturar nações que já são desenvolvidas e colocá-las no topo. E a principal ferramenta usada para esse truque é a categoria chamada Estado de Direito.

Como vimos no ponto anterior, essa categoria avalia coisas como o direito de propriedade, a eficácia e imparcialidade do Judiciário e a integridade do governo (ou seja, níveis de corrupção). Mas pare por um segundo e reflita: essas características medem “liberdade econômica”, “livre mercado” ou um “Estado menor”? Absolutamente não. O que elas medem, na verdade, são garantias legais, segurança jurídica e instituições estatais funcionando muito bem. São reflexos de uma alta capacidade jurídica e estabilidade institucional, o que é bem diferente da cartilha do liberalismo econômico radical.

É exatamente aqui que a armadilha se fecha: países que já são ricos e desenvolvidos naturalmente largam na frente nesses quesitos. Nações com longo histórico de desenvolvimento costumam ter instituições consolidadas, um Judiciário muito bem estruturado, burocracias eficientes e menores percepções relativas de corrupção. Se você olhar o recorte específico da categoria “Estado de Direito” no índice de 2026, o top 10 é dominado quase que exclusivamente por países nórdicos e outras nações europeias desenvolvidas.

Uma outra curiosidade interessante do índice é que quando cruzamos os dados de Integridade Governamental com os dados da categoria “Tamanho do Estado”, encontramos uma correlação curiosa: países com Estados menores tendem a ter uma pontuação muito baixa em Integridade Governamental, ou seja, sofrem com níveis mais altos de corrupção. Por outro lado, países com Estados maiores, que pontual mal na categoria de Tamanho do Estado, costumam ter maiores notas de Integridade Governamento, ou seja, são menos corruptos.

E por qual razão isso acontece? Não é uma mera coincidência, é o peso do desenvolvimento histórico. Como essa categoria de solidez institucional tem um peso importante na média final, ela funciona como um elevador que empurra esses países ricos diretamente para o topo do ranking geral. Ou seja, a “liberdade econômica” que os coloca em destaque é, em grande parte, apenas o reflexo de instituições fortes que eles conseguiram construir ao longo de anos de desenvolvimento.

O Paradoxo do "Menos Estado"

Uma das faces mais conhecidas e repetidas do Índice de Liberdade Econômica no debate público é o seu uso como uma verdadeira arma ideológica para sustentar uma tese muito específica: a de que a redução do Estado gera desenvolvimento e prosperidade. A narrativa que se tenta vender é que o “menos Estado” — traduzido em cortes de gastos públicos e redução de impostos — é o motor definitivo para a riqueza de uma nação. No entanto, quando analisamos a própria estrutura do índice, deparamo-nos com um paradoxo profundo que desmonta essa tese de dentro para fora.

Para comprovar isso, basta fazermos um exercício prático com os dados do ranking. Se a premissa liberal estivesse correta, seria natural esperar que os países com as melhores notas na categoria “Tamanho do Estado” (aqueles com os menores Estados) fossem os grandes exemplos globais de riqueza, bem-estar e sofisticação econômica. Porém, quando filtramos o ranking usando exclusivamente a categoria “Tamanho do Estado”, o resultado que salta à tela é assustador. Confiram na imagem abaixo:

O topo da lista não é ocupado por sociedades-modelo, mas sim por nações como o Turcomenistão, que assume o primeiro lugar, seguido por Guatemala (3º), Afeganistão (4º), Haiti (5º), Cazaquistão (8º) e Camboja (9º). O que esses dados revelam de forma incontestável é que o critério desenhado para premiar o “menos Estado” acaba coroando, em grande parte, países pobres, institucionalmente frágeis, marcados por profundos problemas estruturais ou sob o domínio de regimes autoritários. A promessa de que um Estado mínimo é o atalho para o desenvolvimento desmorona quando confrontada com a realidade dos próprios números que a fundação produz.

Mas as bizarrices não param por aí. Esse mesmo critério de “Tamanho do Estado” expõe uma das contradições mais gritantes de todo o ranking: a excelente pontuação das petromonarquias do Golfo Pérsico. Esses países costumam figurar no topo do índice global de liberdade econômica e recebem notas altíssimas por possuírem uma tributação incrivelmente baixa. Para a lógica simplista do índice, cobrar poucos impostos é o auge da liberdade e um exemplo perfeito de “Estado menor”.

O que o ranking esconde propositalmente, contudo, é o motivo pelo qual esses governos podem se dar ao luxo de quase não cobrar impostos de sua população: o Estado possui o controle e o monopólio absoluto sobre a extração de petróleo e gás natural por meio de empresas estatais. Ou seja, a fonte primária de riqueza e de renda pública dessas nações não vem de um “livre mercado” pujante, mas da captura direta de recursos estratégicos pelas mãos de um Estado extremamente centralizador. Celebrar esses países como modelos de “liberdade econômica” e usar o seu sucesso para defender o receituário do Estado mínimo chega a ser irracional, uma vez que a base de suas economias é justamente a monopolização estatal da atividade econômica central. No fim das contas, a categoria que deveria provar a superioridade do “menos Estado” apenas evidencia que o índice organiza seus critérios de forma seletiva, atropelando a lógica para tentar forçar um resultado ideológico pré-determinado.

O problema da causalidade e os casos históricos

Outro problema central do Índice de Liberdade Econômica é a sua falha lógica fundamental: o problema da causalidade. Os defensores desse ranking partem da premissa de que existe uma relação causal , na qual “mais liberdade econômica” gera “mais desenvolvimento”. Ou seja, eles afirmam categoricamente que os países ricos de hoje se desenvolveram justamente porque adotaram no passado o conjunto de políticas liberais recomendadas pela fundação. O grande obstáculo para essa narrativa é que a régua do índice não consegue provar essa relação de causa e efeito e, para piorar, entra em choque direto com a própria realidade dos fatos.

Para entender essa distorção, basta olharmos para o histórico de desenvolvimento da Suécia. Se analisarmos o período entre as décadas de 1930 e 1970, veremos que o país foi fortemente marcado por um modelo social-democrata. Mais especificamente entre os anos 1950 e 1970, a Suécia enriqueceu adotando exatamente o oposto do que o índice prega: altíssima regulação estatal, carga tributária elevada, forte coordenação econômica, direcionamento de crédito e negociação centralizada de salários. O resultado dessas pesadas intervenções estatais não foi a ruína, mas sim um dos melhores períodos da história econômica sueca, marcado por crescimento robusto, inflação controlada, desemprego reduzido e um imenso salto de produtividade.

A armadilha cronológica do ranking fica evidente quando lembramos que o Índice de Liberdade Econômica só começou a ser elaborado na década de 1990. Quando a Suécia passou a pontuar bem nessa lista, ela já era um país plenamente desenvolvido. Ou seja, o índice comete o erro básico de pegar nações que chegaram ao topo do desenvolvimento e vender a ilusão de que elas enriqueceram graças às características de mercado que possuem hoje, ignorando por completo que a construção real dessa riqueza ocorreu sob forte coordenação do Estado no passado.

Além dessa grave falha estrutural sobre como os países enriquecem, o ranking abriga outras bizarrices internas. Um excelente exemplo disso é a forma como eles medem a chamada “liberdade monetária”, baseando-se essencialmente na existência de uma inflação baixa. Se aplicarmos essa métrica de forma retroativa, chegaremos a uma conclusão delirante: a China de Mao Zedong, durante as décadas de 1960 e 1970, frequentemente registrou índices de inflação mais baixos do que os dos Estados Unidos, da Alemanha e da Suíça. Esse controle inflacionário era alcançado por meio da ação do Estado para baratear bens essenciais. Contudo, pela lógica cega dos critérios do índice, a China de Mao seria considerada muito mais “livre monetariamente” do que as grandes potências capitalistas da época.

Para expor de forma definitiva as contradições internas que sustentam o Índice de Liberdade Econômica, não precisamos ir muito longe: basta olharmos com uma lupa para a Noruega, que ocupa um orgulhoso oitavo lugar na pontuação geral do ranking. Como já vimos, a Noruega larga com uma imensa vantagem no índice porque pontua muito bem nos critérios de democracia e solidez institucional (por ser um dos países mais democráticos do mundo) e possui uma economia aberta, algo natural para uma nação que já é altamente desenvolvida.

No entanto, quando olhamos para a categoria “Tamanho do Estado”, a cartilha liberal começa a entrar em curto-circuito. A Noruega possui uma estrutura de Estado de Bem-Estar Social extremamente robusta. Isso significa que ela tem uma das piores pontuações possíveis em relação ao gasto público (que é altíssimo como proporção do PIB) e também uma pontuação baixa no critério de carga tributária, já que é um país que cobra muitos impostos da sua população, arrecadando algo em torno de 42% a 44% do seu PIB.

Se o país gasta muito e taxa muito, o que seria um “pecado capital” para os defensores do Estado Mínimo,, como ele consegue se manter no Top 10 global de liberdade econômica? A resposta está no critério de “Saúde Fiscal”. A Noruega pontua de forma quase perfeita nesse quesito porque apresenta superávits primários gigantescos — em 2025, segundo o FMI, esse superávit foi de cerca de 4,5% do PIB. Para o índice, isso é um sinal de “liberdade econômica” e responsabilidade fiscal. Mas o que o ranking omite é como a Noruega atinge essa saúde financeira invejável. E a resposta passa a quilômetros de distância do livre mercado desregulado.

A Noruega é um país riquíssimo em petróleo e gás. Em vez de simplesmente entregar essa riqueza para a iniciativa privada e se afastar, o Estado norueguês atua com mão de ferro. Eles possuem uma gigantesca estatal de exploração, a Equinor. Além disso, as empresas privadas que desejam explorar recursos no país são obrigadas a pagar uma taxa astronômica de 78% sobre os seus lucros. É aqui que a mágica acontece: todo esse oceano de dinheiro (formado por impostos pesadíssimos, dividendos da estatal Equinor e altas taxas de licenciamento) não é torrado pelo governo de uma vez. Ele é direcionado para o famoso Fundo Soberano da Noruega, um fundo de investimentos estatal que hoje acumula a impressionante marca de 2 trilhões de dólares e que investe em diversos ativos ao redor do mundo.

A grande cereja do bolo que o Índice de Liberdade Econômica esconde é esta: o governo norueguês retira os juros e os rendimentos bilionários que esse Fundo Soberano gera e os injeta diretamente no orçamento do Estado. É essa dinheirama, oriunda dos rendimentos de um fundo estatal, que garante os superávits gigantescos e a “saúde fiscal” do país. Ou seja, a Noruega pontua maravilhosamente bem no índice graças a uma saúde fiscal que é resultado direto e exclusivo da pesada ação do Estado, de empresas estatais fortes e de impostos altíssimos sobre a exploração de recursos naturais. É exatamente o oposto daquilo que os próprios defensores do índice pregam como receita para o desenvolvimento. Quando você olha para os dados com cuidado, percebe que o índice não reflete uma verdade econômica universal, mas apenas organiza seus critérios de forma seletiva para forçar o resultado ideológico que desejava desde o princípio.

Conclusão: atirando a flecha e pintando o alvo

Para amarrar todas as falhas e contradições que analisamos até aqui, podemos resumir o funcionamento do Índice de Liberdade Econômica com uma metáfora muito precisa: ele opera sob a lógica de quem atira uma flecha na parede e, só depois, pinta o alvo ao redor dela.

Como isso acontece na prática? A fundação por trás do ranking primeiro olha para os países que já se desenvolveram ao longo da história. Em seguida, ela cria um conjunto de critérios institucionais e econômicos desenhados sob medida para favorecer justamente as características que essas nações ricas possuem nos dias de hoje. Como resultado óbvio, esses países são jogados para o topo do ranking. O grande truque de mágica argumentativa acontece no final, quando os criadores do índice olham para essa tabela construída por eles mesmos e concluem que esses países enriqueceram por causa do “livre mercado”, do “menos Estado” e dessa ideia vaga de “liberdade econômica”.

A maior ironia de todas é que o feitiço vira contra o feiticeiro quando olhamos os próprios dados do índice de perto. Quando isolamos a questão do tamanho do Estado, percebemos que boa parte das nações desenvolvidas que estão no topo do ranking possui, na verdade, uma alta carga tributária, gastos públicos muito elevados, déficits orçamentários frequentes e robustos sistemas de Estado de Bem-Estar Social em pleno funcionamento, incluindo um alto percentual de gastos com funcionalismo público. Já os países no topo que não possuem esse perfil de bem-estar social costumam ser justamente as petromonarquias, onde o Estado monopoliza a extração de petróleo e gás para garantir sua arrecadação.

No fim das contas, a grande conclusão é que o Índice de Liberdade Econômica não passa de pura propaganda ideológica. Trata-se de uma arma política cuidadosamente desenhada, revestida com uma roupagem técnica de números, gráficos e tabelas para dar uma aparência de ciência neutra. No entanto, não passa de pseudociência utilizada para vender uma narrativa muito específica no debate público: a ilusão de que existe uma receita mágica e universal de “menos Estado e mais mercado” que gera prosperidade.

A verdadeira história do desenvolvimento econômico das nações nos mostra que os caminhos para a riqueza são imensamente mais complexos, diversos e, na esmagadora maioria das vezes, caminham na contramão dessa narrativa simplista. Portanto, se você se deparar com alguém usando esse índice como uma prova científica irrefutável em um debate, você já sabe: fuja, porque é cilada.


Fica um agradecimento especial ao economista e professor André Melini por ter me ajudado em relação a alguns argumentos do texto.