
Fundação do PSDB
Quando pensamos no principal partido da Nova República, muitos poderiam responder automaticamente: o PT. A resposta é compreensível. Trata-se do partido que governou o país por mais tempo nesse período, que ainda ocupa um lugar central no imaginário político brasileiro e que se confunde, em grande medida, com a liderança de Lula e seus três mandatos conquistados pelo voto popular. No entanto, embora o PT tenha permanecido por mais tempo no governo federal, foi o PSDB que redesenhou de maneira mais profunda as estruturas do Estado brasileiro a partir dos anos 1990.
Mesmo hoje, em franca decadência política e eleitoral, o legado tucano continua inscrito no funcionamento do país. O partido perdeu força nas urnas, deixou de ocupar o centro da disputa presidencial e já não possui a relevância que teve em outros momentos. Ainda assim, muitas das bases institucionais, econômicas e administrativas construídas durante sua passagem pelo poder seguem organizando aspectos centrais do Estado brasileiro.
É justamente essa contradição que torna a trajetória do PSDB tão relevante. Como um partido que redesenhou a institucionalidade do Estado brasileiro, governou o país por oito anos e se consolidou como a principal força de oposição durante mais de uma década entrou em colapso de forma tão acelerada?
As origens do PSDB
A história da fundação do PSDB não começa nas ruas, nos sindicatos ou em grandes mobilizações populares. Sua matriz original foi forjada no ambiente acadêmico paulista das décadas de 1950 e 1960, especialmente nos corredores da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, a FFLCH-USP. Esse percurso remonta a 1958, quando um grupo de jovens professores e intelectuais formou o emblemático Seminário d’O Capital.
Sob a liderança do filósofo José Arthur Giannotti e do sociólogo Fernando Henrique Cardoso, então assistente de Florestan Fernandes, o grupo reuniu intelectuais que se tornariam centrais na política e na academia brasileira, como Octavio Ianni, Ruth Cardoso, Paul Singer, Roberto Schwarz e Francisco Weffort. Inicialmente movidos pelo desejo de ler a obra de Karl Marx com rigor analítico e fora das amarras doutrinárias do marxismo oficial da época, esses intelectuais acabaram formulando uma nova maneira de interpretar as raízes do subdesenvolvimento brasileiro.

O professor Fernando Henrique Cardoso
Foi a partir dessa efervescência acadêmica que se desenvolveu uma disputa teórica com o nacional-desenvolvimentismo que dominava parte importante do debate público daquele período. Enquanto instituições como o Instituto Superior de Estudos Brasileiros, a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe e o Partido Comunista Brasileiro apostavam na dicotomia centro-periferia e defendiam que o Estado deveria induzir e proteger a indústria nacional, o grupo da USP passou a enxergar esse projeto com maior ceticismo.
Para esses intelectuais, as teses da CEPAL e dos chamados nacional-desenvolvimentistas eram insuficientes para compreender a nova realidade da internacionalização dos mercados e do sistema produtivo no pós-guerra. Fernando Henrique Cardoso, em particular, criticava a crença na existência de uma burguesia nacional autônoma, supostamente disposta a liderar um desenvolvimento soberano e desvinculado das economias centrais.
Em vez de defender o fechamento do país e o protecionismo, FHC e o sociólogo chileno Enzo Faletto consolidaram, em Dependência e Desenvolvimento na América Latina, a tese do desenvolvimento associado-dependente. Essa perspectiva sustentava que o desenvolvimento capitalista na periferia não ocorreria necessariamente por meio da ruptura com as nações hegemônicas, mas por meio de pactos e associações entre elites locais e capital internacional. Para modernizar seu parque produtivo e superar o atraso, o Brasil deveria abrir seu mercado interno e estabelecer políticas públicas capazes de incentivar a entrada de capital estrangeiro e de empresas multinacionais.
Tratava-se de uma proposta de industrialização associada, na qual a burguesia nacional assumiria um papel subordinado, cedendo espaço ao capital internacional em setores estratégicos. Ao romper tanto com as ilusões de um desenvolvimento puramente autônomo quanto com as teses revolucionárias da esquerda tradicional, essa elite acadêmica paulista ajudou a pavimentar parte do caminho ideológico que, décadas mais tarde, serviria de base para o PSDB. Essa matriz teórica forneceria elementos importantes para justificar uma agenda de abertura econômica, privatizações e modernização do Estado, consolidando o partido como uma das principais forças políticas da integração do Brasil à lógica da globalização.
A transição da academia para a arena política ocorreu sob o abrigo do Partido do Movimento Democrático Brasileiro, o PMDB, que aglutinava a oposição consentida durante a ditadura militar. Durante a Assembleia Nacional Constituinte de 1987 e 1988, a ala mais progressista e intelectualizada da sigla, que chegou a se organizar no Movimento de Unidade Progressista, percebeu que seu projeto perdia espaço dentro do partido.
Embora a narrativa oficial da fundação do PSDB ressalte o inconformismo ético com a corrupção, as divergências em relação à prorrogação do mandato de José Sarney para cinco anos e o repúdio às alianças com a direita, especialmente com o PFL, a cisão partidária também foi movida por um forte pragmatismo eleitoral. Na prática, esse grupo fundador encontrava-se politicamente asfixiado, alijado dos principais espaços de poder decisório e da distribuição de recursos ministeriais no governo Sarney.
No plano regional, a situação era ainda mais delicada. Lideranças como Franco Montoro, Mário Covas e Fernando Henrique Cardoso viam-se encurraladas pelo quercismo, a máquina política comandada pelo então governador paulista Orestes Quércia. O controle dos diretórios e das estruturas partidárias pelo grupo de Quércia inviabilizava as pretensões nacionais dessas lideranças, especialmente a possibilidade de disputar a sucessão presidencial de 1989 pelo PMDB.
Com isso, o PSDB nasceu como um partido de quadros. Estruturado de cima para baixo por uma elite de advogados, economistas, intelectuais e parlamentares, o partido não possuía organicidade social comparável à de uma legenda de massas. Faltavam-lhe instâncias efetivas de participação popular, vínculos sólidos com o sindicalismo e laços mais profundos com os movimentos sociais.
Apesar dessa limitação, a elite dirigente tucana soube identificar um espaço político disponível. Havia uma classe média urbana exausta e empobrecida pela hiperinflação do governo Sarney, mas também receosa diante do sindicalismo combativo associado à rápida ascensão do Partido dos Trabalhadores. O PSDB procurou ocupar justamente esse lugar: uma alternativa reformista, técnica e moderada, capaz de se apresentar como modernizadora sem assumir o perfil popular e sindical do PT1.
O primeiro teste prático dessa nova força política ocorreu nas eleições presidenciais de 1989. O PSDB lançou o senador Mário Covas com uma plataforma que defendia um verdadeiro “choque de capitalismo”. Covas argumentava que o Estado brasileiro havia crescido demais como produtor de bens, mas se atrofiado em suas funções propriamente governamentais. Para ele, a iniciativa privada deveria abandonar os privilégios estatais e o protecionismo, submetendo-se aos riscos do livre mercado:
Basta de gastar sem ter dinheiro. Basta de tanto subsidio, de tantos incentivos, de tantos privilégios sem justificativas ou utilidade comprovadas. Basta de empreguismo. Basta de cartórios. (...) o Brasil não precisa apenas de um choque fiscal. Precisa, também, de um choque de capitalismo, um choque de livre iniciativa, sujeita a riscos e não apenas a prêmios.
No entanto, a densidade técnica dessa proposta esbarrou naquela que se tornaria uma das maiores fraquezas estruturais do PSDB: a dificuldade de comunicação com as massas. Enquanto Covas discursava em termos técnicos e programáticos, Fernando Collor de Mello capturou parte dessa mensagem modernizante e a traduziu em metáforas agressivas e simples, como a famosa “caça aos marajás”. Covas terminou a eleição em quarto lugar, deixando uma lição amarga para a elite tucana: para chegar ao poder no Brasil, a pretensa superioridade técnica dos gabinetes não bastaria.

Os tucanos voam alto
Se a eleição de 1989 mostrou ao PSDB que uma pretensa competência técnica não se convertia automaticamente em vitória eleitoral, a crise econômica do início dos anos 1990 abriu a janela de oportunidade para que o partido colocasse suas teses em prática. O país atravessava uma crise profunda, corroído por uma inflação inercial que destruía o poder de compra da população e desorganizava a vida econômica. No governo Itamar Franco, a instabilidade também se expressava na condução da política econômica: em poucos meses, o presidente já havia passado por diferentes ministros da Fazenda. Foi nesse contexto que Fernando Henrique Cardoso assumiu o ministério, com força política para organizar um novo projeto de estabilização.
Apoiado por uma equipe de economistas como Edmar Bacha, Pérsio Arida, André Lara Resende e Gustavo Franco, FHC tornou-se o principal fiador político do Plano Real. A grande inovação daquela engenharia macroeconômica foi a criação da Unidade Real de Valor, a URV, uma quase-moeda escritural que permitiu enfrentar a lógica de indexação que sustentava a inflação inercial antes mesmo da entrada em circulação do real. O sucesso político e econômico foi imediato: a inflação caiu de forma expressiva, produzindo um ganho de renda real especialmente importante para os mais pobres, que eram os mais penalizados pela corrosão inflacionária. Esse resultado catapultou Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República já no primeiro turno das eleições de 1994.

Posse de FHC em 1995
Vencer a eleição, no entanto, era apenas o primeiro passo. Governar exigia alterar a Constituição e aprovar reformas que dependiam de maiorias qualificadas no Congresso. Para garantir governabilidade, a cúpula tucana fez uma escolha decisiva: selou uma aliança estrutural e eleitoral com o antigo PFL, principal herdeiro do conservadorismo político brasileiro. Essa aproximação entre um partido originalmente situado no campo da centro-esquerda e a direita tradicional ocorreu sem grandes traumas internos porque o PSDB, desde sua fundação, era um partido de quadros, organizado de cima para baixo e sem instâncias de base capazes de impor resistência efetiva às decisões de suas lideranças2.
Com a máquina federal nas mãos e uma sólida maioria parlamentar, o PSDB passou a exercer uma função histórica maior do que a de uma simples legenda governista. Na interpretação do historiador André Pereira Guiot, o partido assumiu o papel de “Moderno Príncipe” da burguesia brasileira:
Diferentemente do conceito original de Antonio Gramsci, em que o partido revolucionário atuaria como organizador de uma vontade coletiva das classes subalternas, o PSDB funcionou como uma espécie de intelectual coletivo das elites econômicas brasileiras. Sua tarefa histórica foi traduzir, organizar e unificar interesses que estavam relativamente desorientados desde o fim do ciclo desenvolvimentista e da crise do modelo econômico anterior. O partido ofereceu a essas elites uma promessa de reorganização: inserir o Brasil de forma competitiva na lógica da globalização.
Para avançar nessa direção, o governo tucano promoveu a Reforma do Aparelho do Estado, conduzida pelo ministro Luiz Carlos Bresser-Pereira. A premissa era clara: o Estado brasileiro deveria deixar de atuar como produtor direto de bens e abandonar o velho protecionismo para assumir a forma de um Estado regulador e gerencial. A partir dessa orientação, o governo quebrou monopólios, acelerou o Programa Nacional de Desestatização e privatizou empresas estratégicas, como o Sistema Telebrás e a Vale do Rio Doce. Paralelamente, foram criadas agências reguladoras, como Anatel e Aneel, encarregadas de organizar e arbitrar esse novo ambiente de mercado.
O coroamento desse esforço de reorganização institucional veio em 2000, com a sanção da Lei de Responsabilidade Fiscal. A LRF alterou a cultura fiscal do país ao impor limites mais rígidos aos gastos de prefeitos, governadores e presidentes, além de restringir a contratação de dívidas no fim dos mandatos sem disponibilidade de caixa. Com isso, consolidou-se um freio institucional contra práticas associadas ao chamado “populismo fiscal”.
Ao final de seus oito anos no poder, o PSDB entregou um país profundamente transformado e com a inflação sob controle, cumprindo, em grande medida, a antiga promessa de Mário Covas de aplicar um “choque de capitalismo”. Mas essa reorganização também teve custos sociais elevados. O desemprego, os juros altos usados para sustentar a estabilização e a crise do racionamento de energia em 2001 produziram forte desgaste político. A conta desse projeto seria cobrada nas urnas em 2002, empurrando o PSDB para um papel que ele não sabia desempenhar: o da oposição.
O deserto da oposição
O esgotamento do ciclo de reformas da década de 1990, somado às crises cambiais sucessivas e ao traumático racionamento de energia elétrica de 2001, cobrou sua fatura política. A popularidade do governo tucano foi profundamente desgastada, pavimentando a vitória de Lula nas eleições de 2002. Aquele momento consolidou a primeira alternância pacífica de poder da Nova República, mas, para o PSDB, o fim da era FHC representou uma mudança de posição para a qual o partido não estava preparado.

Acostumada ao comando da máquina estatal, a legenda possuía uma vocação essencialmente governista e tecnocrática. Ao perder o Palácio do Planalto, foi obrigada a ocupar, de maneira abrupta, o lugar de oposição federal. A dificuldade vinha da própria natureza da agremiação. O PSDB havia se estruturado como um partido de quadros, organizado de cima para baixo por uma elite de administradores, parlamentares, advogados e economistas. Seu sucesso eleitoral dependia sobretudo da imagem de competência administrativa na gestão do Estado, e não da mobilização popular.
A legenda carecia de organicidade social, capilaridade militante e vínculos sólidos com o sindicalismo e os movimentos de base. O PT, em contraste, mantinha laços profundos com essas forças sociais, o que lhe dava militância, presença territorial e capacidade de sustentação política fora das estruturas de governo. Essa diferença se tornaria decisiva nos anos seguintes.
Ao perder o acesso ao Executivo federal e à formulação direta da política econômica, o PSDB viu enfraquecer sua principal engrenagem de coesão. Sem a caneta presidencial para organizar interesses, mediar disputas internas e oferecer horizonte de poder às suas lideranças, o partido ficou desnorteado. O período na oposição expôs a fragilidade de uma legenda cuja força dependia, em grande medida, do acesso ao Estado.
Sem o controle da máquina federal, o PSDB precisou encontrar uma nova âncora para garantir sua sobrevivência política e institucional. A saída foi um recuo estratégico para seus redutos eleitorais mais sólidos: os governos estaduais do Centro-Sul. Nesse novo cenário, São Paulo consolidou-se como a principal fortaleza tucana. Sob a liderança alternada de figuras como José Serra e Geraldo Alckmin, o partido construiu uma longa hegemonia estadual. Minas Gerais, por sua vez, tornou-se outro pilar importante, articulado em torno de Aécio Neves e da marca administrativa do “choque de gestão”, que combinava tecnocracia tucana, carisma pessoal e capacidade de diálogo.
O domínio sobre essas máquinas estaduais forneceu ao partido o oxigênio necessário para atravessar seus anos de oposição federal. Os governos de São Paulo e Minas funcionaram como vitrines administrativas e plataformas de lançamento para sucessivas candidaturas presidenciais. No entanto, aquilo que parecia uma solução também se converteu em armadilha. Em vez de unificar a legenda em torno de um novo projeto nacional, a dependência desses dois polos aprofundou a disputa interna entre o grupo paulista e o grupo mineiro.
Os bastidores transformaram-se em um campo minado, marcado por tensões constantes e disputas por espaço político. O ápice desse esfacelamento interno ocorreu nas eleições presidenciais de 2010, quando José Serra foi escolhido para enfrentar Dilma Rousseff. Naquele pleito, o fenômeno “Dilmasia” (voto em Dilma para presidente e Anastasia, do PSDB, para governador) escancarou a fragilidade da coesão partidária. A base mineira ligada a Aécio Neves operou uma dissidência velada, abandonando silenciosamente a campanha nacional do candidato paulista, o que acabou favorecendo Dilma Rousseff em Minas Gerais. O episódio revelou que as ambições regionais e pessoais já se sobrepunham à construção de uma estratégia nacional comum.
Além da guerra interna entre paulistas e mineiros, o PSDB desenvolveu uma relação problemática com a própria história. O partido que havia liderado a estabilização monetária e redesenhado bases importantes do Estado brasileiro passou a demonstrar constrangimento diante do legado que havia construído.
Diante da popularidade do governo Lula, impulsionada por uma conjuntura internacional favorável, pelo boom das commodities, pela valorização do salário mínimo e pela expansão do crédito, o PSDB mostrou dificuldade para disputar a memória dos anos 1990. Em vez de reivindicar seu legado e enfrentar o debate público, a legenda aceitou, em grande medida, a narrativa petista que associava a era FHC à chamada “herança maldita”.
Intimidadas pelos custos sociais do ajuste dos anos 1990, pelo desemprego elevado e pelo estigma das privatizações, as lideranças tucanas optaram por uma estratégia eleitoral defensiva. Nas campanhas presidenciais de Geraldo Alckmin, em 2006, e José Serra, em 2010, o partido reduziu a presença pública de Fernando Henrique Cardoso em seus palanques, discursos e propagandas. A tentativa era evitar o desgaste associado ao passado, mas o efeito foi mais profundo: o PSDB passou a parecer envergonhado de sua própria trajetória.

Imagem de Alckmin na eleição de 2006. Essa imagem é simbólica por mostrar um candidato tendo que responder às acusações de que o PSDB era “privatista”, negando o passado governista.
O paradoxo dessa estratégia era evidente. O partido evitava defender abertamente o Plano Real, as privatizações e o modelo macroeconômico que havia construído, enquanto o próprio governo petista preservava pilares centrais dessa arquitetura, como o regime de metas de inflação, o câmbio flutuante e o superávit primário. Ao abrir mão de travar essa disputa de ideias, o PSDB perdeu densidade política. Ficou preso em uma dupla impossibilidade: não defendia com convicção o passado que havia construído, mas também não formulava um futuro capaz de diferenciá-lo do lulismo.
Sem um projeto nacional renovado e privado de seu principal trunfo discursivo, o PSDB encontrou refúgio em uma via mais simples: a polarização baseada no moralismo antipetista. A legenda passou a vocalizar a insatisfação das classes médias tradicionais e de setores das elites urbanas contra o governo petista. Nesse processo, a identidade social-democrata, que já em sua origem convivia com elementos da chamada Terceira Via3, foi progressivamente esvaziada.. Em seu lugar, o antipetismo tornou-se o eixo central de coesão partidária.
Ao trocar a densidade de suas teses originais e o debate programático por uma oposição calcada sobretudo na rejeição ao PT, o PSDB fez uma aposta de alto risco. O partido acreditava estar apenas desgastando seu adversário para herdar o poder no futuro. Na prática, ajudava a alimentar uma onda de repulsa à política institucional que logo escaparia ao seu controle. A legenda que havia organizado o Plano Real e redesenhado o Estado brasileiro começava a chocar o ovo da serpente que, anos depois, devoraria o próprio tucanato.
A derrocada: o canto da sereia da antipolítica
O esvaziamento de um projeto próprio de país e a aposta crescente na retórica do antipetismo levaram o PSDB ao seu limite nas eleições presidenciais de 2014. Naquele ano, impulsionado pela insatisfação social, pelo desgaste do governo Dilma e pelo clima de polarização aberto depois das manifestações de 2013, Aécio Neves chegou ao segundo turno contra a presidente. A disputa foi uma das mais acirradas da história da Nova República. Aécio perdeu por uma margem estreita, de cerca de três milhões de votos, frustrando profundamente a base tucana.

Aécio Neves nas eleições de 2014
Foi nesse momento de frustração eleitoral que o colapso político do PSDB começou a ganhar forma. Em vez de atuar com a responsabilidade institucional esperada de um partido que havia sido pilar da estabilização democrática do país, a campanha de Aécio protocolou no Tribunal Superior Eleitoral um pedido de auditoria para verificar a “lisura” do processo eleitoral. Na prática, a ação questionava a integridade das urnas eletrônicas sem apresentar provas consistentes de fraude.
Anos depois, gravações de uma conversa entre Aécio Neves e o empresário Joesley Batista revelariam o caráter instrumental daquela iniciativa. Nas palavras do próprio tucano, a ação servia para “encher o saco” e dificultar politicamente o início do segundo mandato de Dilma Rousseff. O problema é que o estrago institucional já estava feito. Ao questionar a validade das eleições sem provas, o PSDB ajudou a abrir espaço para uma lógica de desconfiança permanente em relação ao sistema político e eleitoral.
O erro estratégico do partido foi imaginar que poderia instrumentalizar a antipolítica sem ser atingido por ela. A contestação do resultado de 2014 não permaneceu restrita ao jogo tático contra o PT. Ela validou, para parte de seu próprio eleitorado, a ideia de que as instituições só seriam legítimas quando produzissem o resultado desejado. O PSDB acreditava estar apenas desgastando o governo petista, mas ajudava a alimentar uma onda de radicalização que escaparia ao seu controle.
A escalada não parou na contestação das urnas. Entre 2015 e 2016, tentando surfar a onda de indignação popular que tomou as ruas, o PSDB assumiu papel central na sustentação política do impeachment de Dilma Rousseff. Logo depois, em mais um movimento pragmático, embarcou no governo Michel Temer, aceitando ministérios e ajudando a compor a nova base de poder. Ao mesmo tempo, a legenda apoiou com entusiasmo a Operação Lava-Jato, que, sob o discurso do combate à corrupção, produziu uma criminalização ampla da política tradicional.

Manifestação pelo impeachment de Dilma
O cálculo tucano parecia simples: desgastar o PT ao máximo, apoiar a queda de Dilma, participar da transição comandada por Temer e apresentar-se como herdeiro natural do campo antipetista em 2018. Mas a política não se move apenas pelos cálculos de seus operadores. Ao incentivar a retórica antissistema e chancelar a judicialização da política contra seu adversário, o PSDB ajudou a criar um ambiente que não pouparia a própria legenda.
O ponto de inflexão veio em 2017, com os vazamentos das gravações feitas por Joesley Batista, do grupo J&F. Aécio Neves, até então principal rosto nacional do partido e herdeiro mais provável do eleitorado de oposição, foi exposto em negociações suspeitas e arranjos nebulosos. O escândalo não destruiu apenas as pretensões eleitorais do senador mineiro. Ele também atingiu a aura de superioridade ética e gerencial que o PSDB cultivava desde sua fundação como trunfo perante a classe média.
Com suas lideranças históricas atingidas e sua imagem pública profundamente desgastada, o partido tentou uma saída pragmática nas eleições municipais de 2016. Em São Paulo, apostou na candidatura do empresário e comunicador João Doria. Com grande capacidade de capturar a insatisfação contra o sistema político, Doria apresentou-se como gestor eficiente, não como político profissional. A estratégia rendeu uma vitória no primeiro turno na capital paulista, mas aprofundou a descaracterização da legenda. O PSDB passava a adotar, por dentro, a linguagem da antipolítica que antes dizia apenas administrar de fora.

O abismo programático do tucanato ficou evidente nas eleições presidenciais de 2018. O partido lançou Geraldo Alckmin, que reuniu a maior coalizão partidária do país e um enorme tempo de propaganda eleitoral no rádio e na televisão. Essa força, no entanto, revelou-se inútil diante da nova dinâmica política. Alckmin terminou a eleição com 4,76% dos votos válidos, em quarto lugar. O resultado mostrou que o eleitorado de centro-direita tradicional, cultivado pelo PSDB durante décadas, havia migrado em massa para Jair Bolsonaro.
O golpe mais simbólico ocorreu no próprio estado de São Paulo, a fortaleza histórica do partido. Na disputa pelo governo paulista, João Doria abandonou Geraldo Alckmin, seu padrinho político, à própria sorte ainda no primeiro turno. No segundo turno estadual, em um movimento de puro oportunismo eleitoral, fundiu sua campanha à onda bolsonarista por meio do arranjo que ficou conhecido como “Bolsodoria”. Ao aderir ao radicalismo de extrema-direita para manter o controle da máquina estadual, o partido sepultou parte importante de sua identidade moderada e intelectualizada.

A fatura por essa descaracterização chegou em 2022. Aquele ano não representou apenas mais uma derrota eleitoral, mas a cristalização da derrocada tucana. A legenda que havia ditado os rumos do Estado brasileiro nos anos 1990 desmoronou simultaneamente em três frentes: na disputa presidencial, no Congresso Nacional e em sua principal fortaleza regional.
No plano nacional, o partido mergulhou em uma guerra interna durante as prévias de 2021, disputadas por João Doria e Eduardo Leite. Marcadas por falhas técnicas, acusações de fraude e forte desgaste público, as primárias deram a vitória a Doria, mas aprofundaram a divisão interna. Isolado e boicotado pela própria cúpula tucana, Doria acabou forçado a desistir da candidatura antes da eleição. O resultado foi histórico: pela primeira vez desde a redemocratização, o partido que havia polarizado a política nacional por mais de duas décadas não lançou candidato próprio à Presidência da República. Restou ao PSDB aceitar o papel de coadjuvante, compondo a chapa de Simone Tebet, do MDB, com a indicação da vice. Para tornar o quadro ainda mais simbólico, Geraldo Alckmin, depois de 33 anos no partido, deixou o PSDB e filiou-se ao PSB para ser vice de Lula, seu antigo adversário. A antiga polarização PT-PSDB chegava, ali, ao seu fim definitivo.

Alckmin na campanha de 2022
O segundo golpe ocorreu no Legislativo. A bancada tucana na Câmara dos Deputados, que em seus tempos de maior força chegou a reunir dezenas de parlamentares e influenciar as grandes reformas nacionais, encolheu para 13 cadeiras. No Senado, o cenário foi ainda mais duro: o partido não conseguiu eleger nenhum representante naquele pleito.
O terceiro golpe, talvez o mais doloroso, veio de São Paulo. Rodrigo Garcia, herdeiro da máquina estadual deixada por João Doria, terminou a eleição para o governo paulista em terceiro lugar, com 18,4% dos votos, sem sequer chegar ao segundo turno. A derrota encerrou 28 anos de hegemonia tucana ininterrupta no estado, iniciada com Mário Covas em 1994.
Hoje, sob o comando de Aécio Neves, sem protagonismo presidencial, reduzido a uma bancada modesta, abrigado em uma federação com o Cidadania e expulso de seu principal feudo regional, o antigo “Moderno Príncipe” da política brasileira tornou-se uma sombra do que já foi. A legenda que um dia organizou elites, conduziu reformas estruturais e redesenhou parte importante do Estado brasileiro passou a operar movida sobretudo pelo pragmatismo de sobrevivência. O PSDB encerra sua era de ouro não em uma grande batalha de ideias, mas em um processo prolongado de esvaziamento político, eleitoral e ideológico.
Sobre este ponto, um adendo interessante foi apresentado pelo meu amigo Pedro Ribeiro, do Comunhão Popular, que dedica parte de seu interesse intelectual ao estudo da democracia cristã no Brasil. Franco Montoro, ex-governador de São Paulo, democrata cristão e fundador do PSDB, era contra o uso do termo “social democracia”, pois já antevia uma guinada do PT ao centro. Isso poderia deixar o partido recém-criado sem um discurso próprio, obrigando-o a disputar o rótulo da social-democracia com uma legenda de origem sindical, como o PT, e empurrando o PSDB para o centro.
Na verdade, o PFL que teve que lidar com tensões internas importantes, dado que parte das oligarquias do partido ainda estava associada ao modelo desenvolvimentista anterior, que se chocava com o projeto de mudanças institucionais do PSDB.
O conceito de “Terceira Via” adquire diversos significados no debate político, especialmente a depender do contexto. Neste contexto em específico, diz respeito a uma guinada centrista da social democracia em direção a políticas pró-mercado.
Referências
D'ARAUJO, Maria Celina. PSDB e PT e o Poder Executivo. [Artigo de periódico]. [S. l.: s. n.], [s. d.].
GUIOT, André Pereira. Um "moderno Príncipe" da burguesia brasileira: o PSDB (1988-2002). 2006. 197 f. Dissertação (Mestrado em História) – Departamento de História, Instituto de Ciências Humanas e Filosofia, Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2006.
MIRANDA, Jeferson Alexandre. O antidesenvolvimentismo na criação do PSDB. In: SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA DA ANPUH-BRASIL, 31., 2021, Rio de Janeiro. Anais [...]. Rio de Janeiro: ANPUH-Brasil, 2021.
NOBRE, Marcos. Imobilismo em movimento: da abertura democrática ao governo Dilma. São Paulo: Companhia das Letras, 2013.
QUERIDO, Fabio Mascaro. Lugar periférico, ideias modernas: aos intelectuais paulistas as batatas. 1. ed. São Paulo: Boitempo, 2024. E-book.
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