
O tema do identitarismo costuma ser bastante polêmico, especialmente nos dias atuais, uma vez que há uma enorme confusão em torno de sua definição. Essa confusão, muitas vezes, é utilizada de forma proposital tanto por seus críticos quanto por seus defensores. Do lado dos críticos, ela pode servir para diminuir a importância de lutas políticas justas associadas às minorias. Do lado dos defensores, por sua vez, essa mesma confusão pode funcionar como uma espécie de blindagem contra críticas, protegendo determinadas teorias e posições políticas associadas ao identitarismo. Por mais que essa confusão semântica precise ser reconhecida, a crítica ao identitarismo continua sendo imprescindível, tanto por uma questão de demarcação teórica quanto por uma questão de sobrevivência política.
A primeira etapa de uma crítica ao identitarismo precisa trazer uma definição clara do próprio conceito, para que o debate seja orientado por essa delimitação. Esse já é um primeiro grande desafio, porque o identitarismo costuma produzir algumas confusões importantes. Muitas vezes, ele é confundido com a própria luta política das minorias. Em outras situações, é tratado como se fosse uma teoria ou uma filosofia fechada, isto é, como se constituísse uma corrente teórica com pressupostos e ideias estáveis, claramente definidos e internamente coerentes.
Portanto, o primeiro passo para uma definição do identitarismo é delimitar com cuidado o que esse termo significa. Isso é especialmente importante porque, embora o identitarismo não seja uma teoria ou uma filosofia fechada, ele funciona como uma perspectiva, uma visão de mundo (ainda que não totalmente fechada) que embasa a luta política de determinados grupos. É justamente aí que se encontra o centro da discussão. Essa perspectiva compartilha certas ideias e certos pressupostos, e esses pressupostos produzem consequências concretas na prática política.
Por isso, este texto partirá, primeiro, de uma definição do que é o identitarismo. Em seguida, explorará algumas consequências dessa definição para, então, avançar na discussão sobre por que é necessário fazer uma crítica ao identitarismo a partir dos efeitos políticos derivados desses pressupostos.
O que é o identitarismo?
Como foi mencionado anteriormente, o identitarismo não deve ser entendido como uma corrente filosófica ou como uma teoria política fechada. No contexto da discussão do texto , ele será tratado como uma (dentre várias) perspectiva que embasa determinadas formas de atuação política, especialmente a atuação de grupos minoritários e de grupos que lutam contra opressões na sociedade atual. Esses grupos envolvem parte dos chamados Novos Movimentos Sociais, ou movimentos de luta contra a opressão, como o Movimento Negro, o Movimento LGBT e o Movimento Feminista. Trata-se de movimentos que vão além daqueles tradicionalmente associados à luta sindical e às relações de trabalho.
Nesse sentido, o identitarismo traz consigo a ideia de que a luta política deve estar centrada na identidade. Mas o que isso significa? De certa forma, toda luta política começa na identidade. Ela parte da posição que cada sujeito ocupa no mundo, da forma como percebe determinadas questões, como compreende as relações sociais e como enxerga as estruturas que moldam a sociedade e atuam sobre a vida das pessoas. Por isso, quando alguém inicia uma trajetória de militância política, esse movimento costuma partir de sua própria experiência, de sua individualidade e da maneira como essa pessoa se percebe diante do mundo. O problema do identitarismo, porém, está no fato de que ele tende a manter a luta política fechada na identidade. Trata-se de uma luta que começa na identidade e termina na própria identidade, sem conseguir avançar para além dela.
O que isso significa em termos práticos? Imagine uma pessoa negra que nasce em uma sociedade racista. Essa pessoa percebe o racismo, vive o racismo e, em alguns casos, é diretamente vítima dele. A partir dessa experiência, ela decide agir para combater esse problema, seja reivindicando políticas públicas, seja fazendo um enfrentamento mais estrutural das instituições e práticas que identifica como racistas na sociedade. Nesse caso, trata-se de uma luta política que parte da identidade. A experiência concreta dessa pessoa com o racismo se torna o ponto de partida para sua atuação política, orientada pela tentativa de enfrentar e, no limite, erradicar esse tipo de opressão. O problema do identitarismo, porém, aparece quando essa luta permanece restrita a esse ponto de partida. Isto é, quando a identidade não funciona apenas como origem da ação política, mas também como seu limite. Nesse caso, a pessoa passa a se engajar apenas nas lutas diretamente relacionadas à sua própria identidade. Quando se depara com outras pautas, outras formas de opressão, outras identidades ou uma luta política mais ampla do que aquela vinculada à sua experiência imediata, ela tende a não se engajar.
Essa percepção aparece, por exemplo, em um dos principais marcos do identitarismo e de uma perspectiva identitária das lutas de minorias: o Manifesto do Coletivo Combahee River. O texto destaca justamente essa ênfase na experiência da própria opressão, como podemos observar no trecho abaixo:
A ideia central aqui é a de que a opressão é vivida pela própria pessoa e, por isso, essa pessoa precisa atuar politicamente para combater a sua própria opressão. A política, nesse sentido, passa a ser compreendida como um instrumento voltado à superação da opressão experimentada por determinada identidade.
O problema é que essa perspectiva pode acabar deixando outras formas de opressão em segundo plano, concentrando a atuação política em uma opressão específica, vinculada àquela identidade particular. Ao mesmo tempo, é importante reconhecer que essa formulação surge como uma tentativa de responder a impasses reais percebidos na militância de esquerda. Havia, nesse contexto, a crítica de que a esquerda tradicional teria se preocupado excessivamente com a questão de classe e permanecido, em grande medida, dominada por homens brancos. Com isso, as opressões vividas por mulheres negras acabavam sendo negligenciadas pelos movimentos tradicionais da esquerda ou pelo feminismo. É nesse cenário que essa perspectiva ganha força: como uma tentativa de afirmar o protagonismo político de mulheres negras diante de experiências de opressão que julgavam não encontrar espaço suficiente nas formas tradicionais de organização política.
Essa perspectiva também vem acompanhada de outras formulações que se desenvolvem no mesmo período. Entre elas, está a influência de uma visão que busca validar o conhecimento a partir de aspectos sociológicos. A partir dessa forma de validação, ganha força a ideia de que todo conhecimento é socialmente situado e, portanto, está intimamente ligado à posição do sujeito que o produz. Há ainda outra perspectiva importante, destacada pela teórica Sonia Kruks em Retrieving Experience: Subjectivity and Recognition in Feminist Politics ao comentar aquilo que chama de “epistemologia da proveniência”. Trata-se de um desenvolvimento dessas compreensões que pode resultar em uma forma de relativismo ético e epistemológico. Nesse caso, parte-se da alegação de que determinados grupos possuem uma especificidade tão profunda que pessoas de fora, por não compartilharem aquela experiência imediata, não poderiam compreendê-la plenamente, avaliá-la ou sequer falar sobre ela com legitimidade.
A partir daí, surgem também noções que se tornaram bastante presentes no debate público sobre identitarismo, como a ideia de “lugar de fala”. No embate público, essa noção muitas vezes assume uma forma excludente, na qual a perspectiva da pessoa oprimida passa a ser tratada como inerentemente verdadeira e correta justamente porque essa pessoa sofreu ou vivenciou determinada forma de opressão, como racismo, machismo ou LGBTfobia. Com isso, pessoas de fora daquele grupo seriam vistas como incapazes de compreender plenamente essa experiência e de traduzi-la em um discurso político coerente. O resultado é que certas críticas vindas de fora desses grupos acabam sendo previamente invalidadas, não necessariamente pelo conteúdo do argumento, mas pela posição social de quem as formula.
Diante disso, aparece um aspecto de extrema importância, que é o principal ponto que quero debater aqui. Por isso, não pretendo me alongar em questões teóricas ou em um debate filosófico mais profundo. O centro da discussão, está na ideia de validação da militância política apenas a partir da experiência individual, isto é, a partir da experiência de opressão vivida pela pessoa, sem a construção de uma perspectiva universalista da luta política.
Mas o que seria esse universalismo? Seria uma perspectiva que compreende a libertação de um grupo como parte de uma libertação mais ampla, ou de uma mudança mais geral e estrutural, capaz de afetar o conjunto da sociedade. Para pensar esse ponto, podemos considerar duas propostas universalistas distintas: uma vinculada à tradição liberal clássica e outra vinculada à tradição marxista.
Na perspectiva liberal clássica, especialmente a partir das revoluções burguesas, afirma-se a noção de que os seres humanos são iguais e de que essa igualdade deve ser expressa na lei. A igualdade jurídica garantiria direitos iguais, tratamento igual perante as instituições e uma série de direitos fundamentados na ideia de que o ser humano é portador de direitos naturais. Dentro dessa perspectiva, a luta política das minorias aparece, muitas vezes, como uma luta pela garantia de direitos no interior da própria lei. Essa influência foi muito forte em diversos movimentos históricos, como na luta pelo direito ao voto das mulheres, na luta abolicionista, no combate à segregação racial e em outras reivindicações por igualdade jurídica e civil. Trata-se, portanto, de uma forma de universalismo liberal: a ideia de que todos devem ser reconhecidos como sujeitos de direitos perante a lei.
Na perspectiva marxista, também há uma dimensão universalista, mas ela parte de uma crítica à tradição liberal. Para o marxismo, a garantia formal de direitos não é suficiente, porque esses direitos nem sempre se materializam concretamente na realidade social. Por isso, seria necessário identificar a raiz das formas de opressão. E, nessa leitura, a raiz fundamental está vinculada à forma de produção capitalista, que depende das opressões de uma série de minorias para fortalecer a exploração de classe. Assim, se uma luta específica não se articula à luta pela superação da forma capitalista de produção, ela tende a permanecer limitada. A luta contra uma opressão particular precisaria estar conectada a uma luta mais ampla pela emancipação da humanidade. É daí que vem a dimensão universalista do marxismo: a compreensão de que a libertação de grupos oprimidos não pode ser separada de uma transformação estrutural mais profunda da sociedade e que essa transformação se direciona para a emancipação universal.
O problema do identitarismo é que ele rejeita ambas as concepções. Ele opera dentro de um arcabouço conceitual geralmente associado ao chamado pós-modernismo ou à pós-modernidade. Uma das grandes características dessa perspectiva, como aponta Jean-François Lyotard, é a descrença em relação às metanarrativas. Mas o que significa essa descrença nas metanarrativas? Trata-se da recusa de grandes explicações universais, isto é, de tentativas de interpretação da realidade que pretendem oferecer uma chave geral para compreender a sociedade, a política e a emancipação humana. Esse tipo de pretensão universal aparece tanto na tradição liberal quanto na tradição marxista, ainda que de maneiras muito diferentes.
A crítica identitária parte da ideia de que essas duas perspectivas, justamente por se apresentarem como universais, acabam produzindo exclusões. Elas poderiam ocultar certas lutas, invisibilizar determinadas opressões ou subordinar experiências específicas a uma causa maior, fazendo com que certos grupos não apareçam como protagonistas de sua própria luta. É por isso que ganha força uma visão de luta contra a opressão que começa na identidade e permanece fechada na própria identidade. E é justamente aí que está a principal diferença entre uma perspectiva universalista e uma perspectiva identitária: enquanto a primeira busca inserir lutas particulares dentro de um horizonte mais amplo de emancipação, a segunda tende a tomar a própria identidade como ponto de partida e limite da ação política.
Quais as consequência do identitarismo?
Passada essa explicação mais geral sobre o que é o identitarismo e sobre sua diferença em relação ao universalismo, podemos avançar para uma análise de suas consequências. Há uma série de efeitos que podem ser identificados a partir dessas premissas e que aparecem em lutas políticas influenciadas por perspectivas de caráter identitário.
A primeira consequência importante é o enfraquecimento da solidariedade humana. Mas por que o identitarismo enfraquece essa solidariedade? Ao rejeitar as metanarrativas, ele também rejeita formas de compreensão que procuram enxergar uma dimensão universal no ser humano. Isto é, rejeita a ideia de que, apesar de todas as diferenças, existe um núcleo comum de humanidade compartilhado por todos. Com isso, a solidariedade e a empatia acabam sendo enfraquecidas. Afinal, quando se rejeita a possibilidade de uma igualdade para além das diferenças, também se fragilizam os elementos que permitem reconhecer a dor do outro, compreender sua experiência e se solidarizar com aquilo que ele sofre. O resultado disso é uma luta política extremamente fragmentária.
Se a política mais radical é feita a partir da própria identidade, se a luta política fica restrita à própria opressão, e se não há uma visão capaz de reconhecer uma humanidade comum apesar de todas as diferenças, por que eu deveria me preocupar com os direitos de outras pessoas? Por que eu deveria me preocupar com opressões que não me afetam diretamente? De saída, cria-se uma situação em que o sujeito se desobriga a pensar a garantia de direitos e as transformações sociais necessárias para melhorar a vida de outros grupos. A luta política, nesse caso, deixa de mirar a erradicação geral das opressões e das desigualdades e passa a se concentrar apenas naquelas que atingem a identidade específica de quem luta.
É nesse contexto que se torna tão comum, dentro da militância que parte de uma perspectiva identitária, a linguagem dos privilégios. Muitas vezes, outros grupos são acusados de serem privilegiados como se isso representasse uma culpa individual ou um erro moral em si. Um exemplo bastante recorrente é a ideia de que pessoas brancas que não são vítimas de violência policial seriam privilegiadas. O problema dessa formulação é que uma pessoa que pode andar na rua à noite sem ser abordada com violência pela polícia, sem ser discriminada e sem ter sua integridade ameaçada, não está usufruindo de um privilégio. Ela está tendo um direito respeitado. Privilégios devem ser abolidos; direitos devem ser universalizados. Privilégio é uma pessoa bilionária ter isenção de imposto enquanto dispõe de dinheiro e influência para comprar apoio político em Brasília e garantir seus próprios interesses. Isso deve ser abolido. Isso é privilégio. Agora, poder andar em paz na rua, ser respeitado por agentes do Estado e não sofrer violência arbitrária não é privilégio: é direito. A grande tarefa política, portanto, não é retirar esse respeito de quem já tem seus direitos minimamente reconhecidos, mas universalizar esses direitos, fazendo com que eles valham para todos.
O grande problema dessa linguagem é que ela tende a produzir uma situação de conflito. Ela dificulta o engajamento de pessoas que estão fora daquela perspectiva identitária ou que não experimentaram determinada opressão ou desigualdade a partir de sua própria identidade. Em vez de ampliar a adesão à luta por direitos, essa forma de linguagem pode estimular tensão, ressentimento e divisão.
A linguagem da universalização dos direitos caminha em sentido oposto. Ela procura mobilizar a solidariedade e a empatia de outras pessoas, justamente para que elas apoiem causas importantes na garantia de direitos e no enfrentamento de injustiças históricas. Nesse caso, a luta política não se fecha na experiência imediata de um grupo, mas busca transformar essa experiência em uma reivindicação mais ampla, capaz de convocar outros setores da sociedade para a defesa de direitos que devem valer para todos.
Uma consequência dessa fragmentação da luta política, associada à autopercepção das opressões, é a própria divisão interna dos movimentos. Trata-se de uma perspectiva em que a experiência de opressão vivida por determinado grupo passa a validar sua atuação e sua formulação política a partir da própria opressão que esse grupo sente.
Isso pode ser observado, por exemplo, no movimento LGBT. Hoje, inclusive, a própria sigla LGBT já aparece, em muitos contextos, como insuficiente ou em desuso (até onde vi, a sigla “correta” hoje é LGBTQIAPN+). A cada novo momento, novas letras são adicionadas à sigla, justamente porque se busca representar experiências particulares de opressão vividas por diferentes grupos. Cada experiência específica precisa encontrar algum tipo de representação formal dentro da sigla, já que a formulação original, LGBT, deixa de ser vista como capaz de abarcar toda essa diversidade de experiências.
Outro caso bastante comum aparece no debate sobre o chamado colorismo, isto é, a ideia de que pessoas com diferentes tons de pele sofrem a opressão racial de maneiras distintas. Nessa perspectiva, haveria uma ampla diversidade de pessoas que podem ser consideradas negras, mas aquelas com pele mais retinta e traços mais associados à negritude sofreriam formas mais intensas de racismo. Por outro lado, pessoas negras de pele mais clara, com traços miscigenados ou mais próximos de traços brancos, sofreriam menos discriminação e menos preconceito. Assim, forma-se uma espécie de hierarquia de opressões baseada nas diferenças de tom de pele dentro da própria população negra.
O problema desse tipo de diferenciação é que, se a percepção da opressão passa a validar a militância política e os encaminhamentos políticos voltados a enfrentar essa opressão, cria-se uma situação em que os próprios movimentos começam a disputar quem sofre mais do que os outros, quem é mais oprimido, quem teria mais legitimidade política ou quem seria mais digno de atenção e reconhecimento. Mesmo em perspectivas que se pretendem interseccionais, que buscam enxergar várias formas de opressão atravessando uma mesma pessoa ao mesmo tempo, o problema permanece quando se abandona uma perspectiva universalista. Se a ação política é validada apenas pela identidade da pessoa e pela experiência direta da opressão, a luta continua inteiramente ancorada nessa experiência particular. Como resultado, cria-se uma disputa interna para definir quem é mais ou menos oprimido, quem merece mais ou menos atenção política e quem deveria ter prioridade nas políticas de combate às opressões. Em vez de fortalecer uma luta comum contra estruturas injustas, essa lógica tende a fragmentar ainda mais os movimentos, deslocando o debate para uma competição permanente em torno da legitimidade conferida pela própria experiência de sofrimento.
Outra consequência desse processo de divisão é a facilidade com que ele pode ser cooptado pelo neoliberalismo. E por que isso acontece? Um dos princípios do neoliberalismo, muito bem descrito por Pierre Dardot e Christian Laval no livro A nova razão do mundo, é a tentativa de criar uma lógica de concorrência que atravessa a sociedade e a própria mentalidade dos indivíduos. O neoliberalismo transforma a sociedade em uma sociedade da concorrência e introduz essa mentalidade concorrencial na forma como as pessoas passam a se enxergar e a se relacionar. Essa lógica combina muito bem com a fragmentação dos movimentos políticos. Se a tônica da luta passa a ser a minha própria opressão ou do meu grupo, o resultado direto é que diferentes movimentos acabam disputando entre si o acesso a reconhecimento, recursos e benefícios dentro da política institucional.
Essa disputa ocorre justamente em um contexto de desmonte da saúde, da educação e dos serviços públicos. Com isso, abandona-se uma luta mais geral por transformação social e por ampliação universal de direitos, substituindo-a por uma disputa pelas migalhas do que restou do serviço público, do que restou da saúde, do que restou da educação. Em vez de enfrentar o processo mais amplo de precarização e desmonte, os movimentos passam a competir entre si por espaços cada vez mais restritos dentro de uma estrutura já enfraquecida.
Um exemplo dessa dinâmica está na política de cotas. Se eu já não consigo mais construir uma educação pública capaz de melhorar a vida das pessoas, ampliar o acesso ao conhecimento, desenvolver o raciocínio crítico e funcionar como mecanismo de redução das desigualdades, qual passa a ser a resposta? Em vez de lutar pela ampliação e pela melhoria estrutural da educação pública, passa-se a lutar por cotas, e cada vez mais por cotas. A disputa deixa de ser pela reconstrução de um sistema público universal e passa a ser pelo percentual reservado a cada grupo dentro de um sistema cada vez mais limitado.
Isso aparece de forma bastante direta no debate sobre cotas na pós-graduação. Na graduação, a política de cotas responde a um problema de acesso. O aluno que estudou em escola particular, em geral, teve acesso a uma formação muito melhor do que o aluno que estudou em escola pública. Essa diferença pesa enormemente no momento do vestibular. Como resultado, muitas vezes o aluno que estudou em escola particular consegue ingressar em uma universidade pública de qualidade, enquanto o aluno que estudou a vida inteira em escola pública acaba indo para uma instituição privada justamente porque não teve condições de competir em igualdade no processo seletivo. Nesse caso, a cota aparece como uma tentativa de equilibrar parcialmente esse processo, enquanto a educação pública básica não se iguala à educação particular. Já na pós-graduação, a situação é diferente. Os estudantes que chegam a esse nível já passaram pela universidade e tiveram acesso ao mesmo ensino superior. O problema, portanto, não é exatamente o mesmo que aparece na entrada da graduação.
Ainda assim, na pós-graduação, a ideia de cota social vai sendo deixada de lado e passam a ganhar espaço cotas raciais e cotas por identidade de gênero e outras formas de recorte identitário. O problema é que, especialmente para os grupos mais vulneráveis, a questão central muitas vezes não está no ingresso na pós-graduação, mas na permanência na graduação. Em vez de construir uma política universal de permanência, com auxílio público e financiamento capaz de garantir que o estudante de baixa renda possa continuar na universidade sem precisar conciliar estudo e trabalho em condições extremamente precárias, abandona-se essa proposta mais ampla em nome de uma disputa cada vez mais fragmentada por cotas na pós-graduação.
Nesse último ponto, estamos falando de uma política marcada pelo desmonte dos serviços públicos, especialmente da educação pública, e de uma luta cada vez mais limitada pelo que restou dentro desse processo de desmonte. Mas há também outro aspecto importante: a cooptação direta dos movimentos. No primeiro caso, essa perspectiva identitária funciona como uma ferramenta que contribui para o abandono de uma luta mais geral pelo fortalecimento dos serviços públicos universais, como saúde, educação e assistência social. A disputa política deixa de se organizar em torno da reconstrução dessas estruturas e passa a se concentrar na disputa por espaços fragmentados dentro de instituições já precarizadas.
No caso da cooptação direta, o processo é ainda mais explícito. Trata-se de identificar pessoas que se tornam referências nessa militância, que ganham destaque público, e incorporá-las à dinâmica neoliberal por meio de financiamento, participação em campanhas publicitárias, presença na televisão, bolsas para estudar em universidades fora do Brasil ou outras formas de reconhecimento institucional e profissional. Isso é muito comum porque muitas pessoas passam a utilizar essa militância e o debate político em torno dela como uma forma de projeção pessoal. Elas se beneficiam dessa lógica identitária, que se ajusta muito bem ao neoliberalismo, e acabam sendo absorvidas por sua dinâmica. Em contrapartida, oferecem uma política altamente fragmentária, que enfraquece a possibilidade de uma luta conjunta contra o próprio neoliberalismo e reforça, na prática, sua lógica concorrencial.
Por fim, há uma outra consequência importante: o identitarismo pode acabar funcionando como uma escada para movimentos de extrema-direita, que também operam de maneira identitária. A diferença é que, nesses casos, costuma-se construir uma espécie de identitarismo de maiorias. Isso aparece, por exemplo, quando alguns movimentos negros de matriz mais identitária recebem forte influência do nacionalismo negro ou de certas vertentes do pan-africanismo, muitas vezes associadas às ideias de Marcus Garvey. Dentro desses grupos, é comum encontrar discursos de condenação à miscigenação, críticas a homens negros que se relacionam com mulheres brancas (são chamados de “palmiteiros”), disputas em torno da estética e até formas de desqualificação de outros grupos.
Nesses casos, a identidade deixa de funcionar apenas como ponto de partida para a denúncia de uma opressão real e passa a assumir uma lógica de fechamento, separação e hierarquização. A partir daí, determinadas formas de militância podem escorregar para uma espécie de supremacismo invertido, no qual a crítica à opressão se transforma em afirmação de superioridade ou em hostilidade contra outros grupos. Isso é utilizado, em conjunto com outros elementos, por grupos identitários de maioria para explorar ressentimentos e canalizar o mal-estar generalizado produzido pelo neoliberalismo contra as minorias. Em outras palavras, a crise social, a precarização da vida e a frustração acumulada passam a ser direcionadas contra determinados grupos, como se eles fossem responsáveis por problemas que têm raízes muito mais amplas.
Podemos pensar, por exemplo, no caso da educação pública. Quando a educação é desmontada e atacada, ela passa a cumprir um papel cada vez menor na mobilidade social. A possibilidade de a escola pública melhorar a vida das pessoas de origem mais humilde, ampliar suas oportunidades e reduzir desigualdades se enfraquece. Como essa luta por uma educação universal vai sendo abandonada, o resultado passa a ser uma disputa pelo que sobra, por espaços restritos dentro de uma estrutura já precarizada, muitas vezes por meio de políticas de cotas. É justamente aí que movimentos contrários às lutas das minorias encontram terreno fértil. Eles passam a apresentar essas políticas como uma ameaça aos demais grupos, afirmando que a identidade dessas pessoas estaria sendo atacada, que seus direitos estariam sendo retirados. Essa retórica mobiliza ressentimentos em uma sociedade que já se pauta pela lógica concorrencial e transforma a reação contra as minorias em uma forma de organização política.
Assim, os excessos produzidos por certa militância de perspectiva identitária acabam servindo de alimento para a extrema-direita. Esses movimentos utilizam o ressentimento social, exploram o mal-estar causado pela precarização neoliberal e o reorganizam em torno de um identitarismo de maiorias, no qual grupos majoritários passam a se enxergar como vítimas de minorias politicamente favorecidas.
Conclusão
A título de conclusão, podemos retomar a pergunta central: por que o identitarismo deve ser criticado? A resposta passa por seus efeitos políticos. O identitarismo tende a produzir um resultado que estimula a divisão, desestimula a empatia e enfraquece a solidariedade entre as pessoas, inclusive entre aquelas que também são vítimas de diferentes formas de opressão na sociedade atual.
Como consequência, ele enfraquece as próprias lutas políticas desses grupos. Enfraquece ao dividir movimentos em segmentos cada vez mais fragmentados; enfraquece ao dificultar a construção de uma solidariedade mais ampla com setores que não são diretamente afetados por determinadas opressões; e enfraquece ao substituir uma luta comum por uma disputa permanente em torno da legitimidade conferida pela experiência particular de sofrimento.
Além disso, essa lógica acaba reforçando a dinâmica neoliberal. Ao transformar a política em uma disputa concorrencial entre grupos, o identitarismo pode ser facilmente absorvido por uma sociedade organizada pela competição. Certas lideranças desses movimentos também acabam sendo cooptadas diretamente pelo próprio sistema capitalista neoliberal, seja por meio de financiamento, projeção midiática, inserção institucional ou oportunidades individuais que não se traduzem em transformação coletiva.
Há ainda outro efeito importante. Por conta de sua linguagem, de sua forma de atuação e de certos impulsos segregacionistas presentes em algumas de suas expressões, o identitarismo também facilita a reação de grupos que não experimentam diretamente essas opressões. Esses grupos podem ser mobilizados por forças políticas que exploram um identitarismo de maiorias, frequentemente associado aos fenômenos contemporâneos da extrema-direita.
Por isso, por mais que as lutas contra as opressões sejam justas e necessárias, e por mais que seja fundamental combater o machismo, o racismo, a LGBTfobia e outras formas de desigualdade, é preciso pensar criticamente o identitarismo e seus efeitos sobre a política atual. Ao fim e ao cabo, essa perspectiva pode acabar estimulando retrocessos justamente em lutas legítimas, que precisariam de apoio amplo, solidariedade social e capacidade de articulação coletiva para avançar.