
O Cidadania é hoje uma daquelas legendas que parecem existir em uma zona cinzenta do sistema político brasileiro. Não tem o peso eleitoral dos grandes partidos, não carrega uma identidade popular muito nítida e, para boa parte do público, aparece apenas como mais uma sigla de centro, fisiológica, liberal em economia e progressista em algumas pautas de costumes (isso quando tenta preservar alguma coerência ideológica). Mas essa aparência discreta esconde uma das trajetórias mais curiosas da política brasileira: o Cidadania é herdeiro direto do antigo Partido Comunista do Brasil, o PCB, fundado em 1922.
Esse é o paradoxo que torna essa história tão interessante. O partido que nasceu inspirado pela Revolução Russa, que se organizou com o objetivo de superar o capitalismo e que durante décadas representou uma das principais expressões do comunismo no Brasil, terminou convertido em uma legenda liberal, altamente fisiológica, integrada ao jogo institucional da Nova República, próxima de setores da centro-direita e marcada, nos últimos anos, por disputas internas, judicialização e brigas pelo controle da máquina partidária.
A pergunta, portanto, não é apenas como o PCB mudou de nome até chegar ao Cidadania. A questão mais importante é entender como uma organização política muda de natureza ao longo do tempo. Como uma legenda criada para ser a vanguarda revolucionária da classe trabalhadora passa, década após década, a trocar a revolução pela institucionalidade, a clandestinidade pela negociação parlamentar, o socialismo pelo pragmatismo eleitoral e, por fim, o velho projeto comunista por uma identidade liberal-progressista.
Essa transformação não aconteceu de uma vez. Ela foi resultado de derrotas históricas, mudanças no cenário internacional, revisões teóricas, disputas internas, cálculo eleitoral e adaptação às regras do sistema político brasileiro. Por isso, reduzir essa trajetória a uma simples “traição” seria empobrecer demais o problema. Houve, sem dúvida, rupturas profundas, manobras internas, traição, inclusive, e abandono de antigas bandeiras. Mas também houve um processo mais longo, no qual a sobrevivência institucional passou a pesar cada vez mais do que a fidelidade à identidade original do partido.
Para entender essa metamorfose, é preciso voltar ao início. Antes de ser Cidadania, antes de ser PPS, antes de se tornar uma legenda liberal-progressista tentando sobreviver em federação com o PSDB, esse partido nasceu como PCB, em meio ao impacto mundial da Revolução Russa e às primeiras tentativas de organizar uma força comunista no Brasil. É nesse ponto que começa a trajetória de uma das transformações ideológicas mais impressionantes da política brasileira.
A origem revolucionária
A história do atual Cidadania não começa como a história de um partido liberal, fisiológico e adaptado ao jogo parlamentar brasileiro. Ela começa em outro mundo político, marcado pelo impacto da Revolução Russa, pela reorganização internacional da esquerda e pela tentativa de criar, no Brasil, uma força comunista capaz de atuar como vanguarda revolucionária da classe trabalhadora. O ponto de partida dessa trajetória está em março de 1922, quando um pequeno grupo de militantes se reuniu em Niterói, no Rio de Janeiro, para fundar o Partido Comunista do Brasil, o PCB.

Imagem da fundação o PCB em Niterói no ano de 1922. Em pé da esquerda para a direita: Manuel Cendón, Joaquim Barbosa, Astrojildo Pereira, João da Costa Pimenta, Luis Peres, José Elias da Silva; sentados: Hermogênio da Silva Fernandes Abílio de Nequete, Cristiano Cordeiro. Fonte: Fundação Astrojildo Pereira
Esse detalhe já é importante. O PCB nasce em um contexto muito diferente daquele em que hoje se encontra o Cidadania. Não era uma legenda preocupada em ocupar um espaço moderado no centro político, nem em se apresentar como uma alternativa liberal-progressista. Seu objetivo original era muito mais ambicioso e radical: organizar politicamente o proletariado para a superação da sociedade capitalista. O partido surgia sob forte influência da Revolução Russa de 1917, que havia demonstrado, para setores da esquerda mundial, que uma revolução socialista era uma possibilidade histórica palpável.
A composição inicial do partido também ajuda a entender esse momento. Muitos de seus fundadores vinham do anarquismo e do anarcossindicalismo, correntes que tinham presença importante no movimento operário brasileiro nas primeiras décadas do século XX. A Revolução Russa, porém, produziu um deslocamento político significativo. Para esses militantes, o bolchevismo passou a aparecer como uma forma mais organizada, disciplinada e vitoriosa de luta revolucionária. O nascimento do PCB, portanto, representou também uma transição dentro da própria esquerda brasileira: de uma militância operária fortemente marcada pelo anarquismo para uma organização comunista vinculada ao modelo soviético.
Essa vinculação internacional se consolidou em 1924, quando o PCB foi admitido na Internacional Comunista, a Comintern, sediada em Moscou. Isso dava ao partido uma espécie de legitimação dentro do movimento comunista mundial. O PCB deixava de ser apenas uma pequena organização nacional e passava a integrar uma rede revolucionária internacional, orientada pela experiência soviética. Entretanto, essa filiação também cobrava um preço alto: o partido passava a depender, em grande medida, das diretrizes políticas e estratégicas formuladas em Moscou. Essa tensão entre realidade nacional e orientação internacional acompanharia boa parte da história do comunismo brasileiro.
A entrada de Luís Carlos Prestes no campo comunista deu ao PCB uma projeção que ele ainda não possuía. Prestes não era um militante qualquer. Sua liderança na Coluna Prestes havia construído em torno dele uma imagem heroica, associada à coragem, à rebeldia e à oposição às oligarquias da Primeira República. Por isso, sua adesão ao comunismo representou um ganho simbólico enorme para o partido. O PCB passava a contar com uma figura de prestígio popular, conhecida nacionalmente e capaz de ampliar o alcance político de uma organização que ainda era pequena e perseguida.

Luis Carlos Prestes
Esse crescimento de influência se expressou na atuação da Aliança Nacional Libertadora, a ANL, uma frente antifascista e anti-imperialista que reunia diferentes setores de oposição ao governo Vargas. Prestes tornou-se presidente de honra da ANL, e o PCB passou a operar dentro desse movimento como uma força decisiva. O contexto internacional também pesava: diante do avanço do fascismo na Europa, a orientação comunista passava pela formação de frentes populares amplas, capazes de reunir comunistas, socialistas, democratas e setores nacionalistas contra a ameaça fascista.
Mas foi justamente nesse momento que ocorreu uma das maiores derrotas da história do PCB. Em novembro de 1935, o partido participou da organização de levantes armados em Natal, Recife e Rio de Janeiro, no episódio que ficaria conhecido como Intentona Comunista. A leitura da direção comunista era a de que havia condições para uma insurreição capaz de derrubar o governo Vargas. Essa avaliação se mostrou profundamente equivocada. Os levantes foram rapidamente derrotados, sem enraizamento popular suficiente e sem capacidade de produzir uma política real.
As consequências foram devastadoras. Vargas aproveitou a insurreição fracassada para intensificar a repressão contra os comunistas e contra a oposição de maneira mais ampla. O episódio serviu como elemento para endurecer o regime, perseguir lideranças políticas e, poucos anos depois, consolidar a ditadura do Estado Novo, instaurada em 1937. Prestes foi preso e permaneceu encarcerado por nove anos. O PCB, por sua vez, foi lançado novamente à repressão e à clandestinidade.
Esse episódio é fundamental porque revela uma característica recorrente da trajetória do partido: a combinação entre ambição revolucionária, dependência de leituras estratégicas externas e dificuldade de avaliar a correlação de forças no Brasil. O PCB não era apenas uma força perseguida por ser comunista. Ele também cometeu erros de cálculo que facilitaram a repressão estatal e contribuíram para seu isolamento político em momentos decisivos. A Intentona de 1935 marcou profundamente a imagem pública do comunismo no Brasil e ofereceu aos setores conservadores um argumento duradouro para associar o PCB à ameaça da desordem, da subversão e da intervenção estrangeira (outro momento em que o PCB também cometeu um erro de cálculo decisivo foi em relação ao governo democrático de Vargas, quando cobravam a saída do presidente, na contramão das massas).
A situação só mudaria parcialmente com o fim da Segunda Guerra Mundial e a queda do Estado Novo. Em 1945, abriu-se uma breve janela democrática no Brasil. Com a anistia, Prestes foi libertado, o PCB voltou à legalidade e, por um curto período, demonstrou uma força eleitoral expressiva. O partido conseguiu obter registro legal, ampliou sua presença pública, elegeu 14 deputados e Prestes ao Senado Federal. Esse momento mostrou que o PCB representava uma base social real, especialmente setores operários, intelectuais e urbanos.

Bancada do PCB na Constituinte de 1946. Em pé, na fila superior da equerda para a direita: Claudino Silva, Osvaldo Pacheco, Batista Neto, Gregório Bezerra, Alcedo Coutinho, Carlos Marighella e Alcides Sabença; na fila inferior: Jorge Amado, José Maria Crispim, Agostinho Dias de Oliveira, Luiz Carlos Prestes, Maurício Grabois, João Amazonas, Milton Caires de Brito e Abílio Fernandes.
No entanto, essa legalidade durou pouco. Com o início da Guerra Fria, a margem de tolerância institucional ao comunismo diminuiu rapidamente. Em 1947, o Tribunal Superior Eleitoral cassou o registro do PCB, sob a alegação de que o partido seria subordinado a uma potência estrangeira, a União Soviética. No ano seguinte, seus parlamentares também tiveram os mandatos cassados. O partido que havia acabado de retornar à vida pública foi novamente empurrado para a clandestinidade.
Esse primeiro grande período da história do PCB é decisivo para entender tudo o que viria depois. O partido nasceu com uma identidade revolucionária clara, vinculou-se ao movimento comunista internacional, ganhou força com Prestes, sofreu uma derrota grave em 1935, foi brutalmente reprimido pelo Estado Novo, experimentou uma breve legalidade no pós-guerra e voltou à clandestinidade com a Guerra Fria. Ou seja, desde o início, sua trajetória foi marcada por uma oscilação permanente entre ambição revolucionária e limitação da atuação institucional.
Essa experiência deixou marcas relevantes. Consolidou no PCB uma identidade de resistência, perseguição e fidelidade ao comunismo internacional, mas, mostrou os limites de uma estratégia baseada na insurreição e na expectativa de ruptura. A partir daí, a questão que começaria a se impor dentro do partido seria cada vez mais difícil: como atuar em um país onde a revolução parecia distante, a repressão era constante e a legalidade podia ser retirada a qualquer momento?
É dessa tensão que nascerá a primeira grande virada estratégica do PCB. Antes de abandonar o comunismo, antes de se transformar em PPS e muito antes de chegar ao Cidadania, o partido precisou enfrentar uma pergunta anterior: a revolução brasileira deveria ser imediata, socialista e proletária, ou deveria passar primeiro por uma etapa democrática, nacional e reformista? É nesse debate que começa a se formar a semente do pragmatismo que, décadas depois, transformaria a natureza do partido.
A virada reformista: etapismo, frentismo e pragmatismo
A primeira grande virada estratégica do PCB começou ainda nos anos 1950, quando o comunismo mundial passou por uma revisão profunda depois da morte de Stalin e das denúncias feitas por Nikita Kruschev no XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética, em 1956. Esse momento abalou a tradição comunista internacional porque colocou em crise a imagem de Stalin, assim como parte da cultura política construída em torno do modelo soviético. A partir dali, ganhou força a ideia de que a luta pelo socialismo não precisaria seguir necessariamente o caminho da insurreição armada, da guerra civil ou da ruptura violenta com a democracia liberal.
A tese da “coexistência pacífica”, defendida por Kruschev, indicava que o confronto entre capitalismo e socialismo poderia ocorrer também por meio da competição política, econômica e diplomática, sem desembocar obrigatoriamente em guerra aberta. Essa mudança teve consequências importantes para os partidos comunistas ao redor do mundo. Aos poucos, passou a existir mais espaço para a defesa de uma transição pacífica, eleitoral e institucional ao socialismo. Essa orientação influenciaria, mais tarde, o chamado eurocomunismo, especialmente nos partidos comunistas da Europa Ocidental, que tentaram se distanciar do modelo soviético tradicional e afirmar a democracia como um valor político próprio, não apenas como um instrumento tático a ser superado.
No Brasil, essa mudança internacional encontrou um contexto interno específico. O país vivia um processo de modernização capitalista acelerada, especialmente durante o governo Juscelino Kubitschek. A industrialização avançava, as cidades cresciam, o mercado interno se expandia e o Brasil parecia entrar em uma nova fase de desenvolvimento. Diante disso, a direção do PCB passou a reavaliar sua leitura sobre a sociedade brasileira. A pergunta central era: o Brasil já estava pronto para uma revolução socialista ou ainda precisava completar tarefas históricas anteriores, ligadas à formação de uma nação capitalista moderna, independente e democrática?
A resposta dada pela direção do partido apareceu na Declaração de Março de 1958. Esse documento marcou uma inflexão decisiva na história do PCB. A partir dele, o partido passou a defender que a revolução brasileira não seria imediatamente socialista, mas nacional, democrática e burguesa. Em termos mais simples, a direção comunista passou a sustentar que o Brasil ainda precisava cumprir uma etapa de desenvolvimento capitalista, com fortalecimento da soberania nacional, ampliação das liberdades democráticas, reforma agrária e enfrentamento de estruturas consideradas atrasadas. Só depois dessa etapa seria possível avançar em direção ao socialismo.
“Os comunistas consideram que existe hoje em nosso país a possibilidade real de conduzir, por formas e meios pacíficos, a revolução antiimperialista e antifeudal. Nestas condições, este caminho é o que convém à classe operária e a toda a nação. Como representantes da classe operária e patriotas, os comunistas, tanto quanto deles dependa, tudo farão para transformar aquela possibilidade em realidade.”
Essa mudança ficou conhecida como etapismo. Primeiro, seria necessário realizar uma revolução democrática e nacional, com apoio de setores progressistas da burguesia brasileira. Depois, em uma fase posterior, a classe trabalhadora poderia lutar pelo socialismo. O ponto mais polêmico estava justamente na aliança com a chamada burguesia nacional. Para a direção do PCB, havia setores da burguesia brasileira interessados no desenvolvimento autônomo do país, na industrialização e na superação da dependência externa. Esses setores poderiam, portanto, ser aliados táticos dos trabalhadores em uma frente ampla contra o imperialismo, o latifúndio e as forças mais conservadoras. A partir dessa posição, o PCB apoia efusivamente o governo Jango e foi uma das principais forças na campanha pelas Reformas de Base.

PCB no comício da Central do Brasil em 1964. Fonte: Arquivo Nacional/Correio da Manhã
Essa formulação mudava profundamente o horizonte prático do partido. O PCB continuava se afirmando comunista, mas sua ação política passava a se orientar cada vez mais pela construção de alianças, pela disputa institucional, pela ampliação democrática e pela participação em frentes políticas mais amplas. A revolução deixava de ser pensada como uma tomada imediata do poder pelo proletariado e passava a ser entendida como um processo mais longo, gradual e mediado por etapas. Essa é uma chave decisiva para entender a trajetória posterior do partido, porque a semente do pragmatismo já estava ali. Antes mesmo de abandonar o marxismo-leninismo, o PCB já começava a deslocar sua prática política para uma lógica de negociação, composição e atuação dentro das possibilidades concretas abertas pela conjuntura.
Mas essa virada não ocorreu sem resistência. Para a ala mais radical do partido, a Declaração de Março representava uma concessão inaceitável ao reformismo. A crítica era a de que, ao apostar em uma aliança com a burguesia nacional, o PCB abandonava a independência política da classe trabalhadora e subordinava o movimento operário a interesses de classe que, no limite, continuavam sendo burgueses. O que para a direção majoritária era uma leitura realista da sociedade brasileira, para os críticos era uma capitulação. O partido estaria trocando a revolução por uma política de conciliação.
Essa tensão explodiu em 1962, quando os setores que rejeitavam a linha reformista romperam e fundaram o Partido Comunista do Brasil, o PCdoB. A partir daí, consolidou-se uma divisão histórica na esquerda comunista brasileira. O PCB, agora chamado Partido Comunista Brasileiro, mantinha a linha majoritária, mais aberta à política de alianças, à ideia de etapas e à atuação institucional. Enquanto isso, o PCdoB reivindicava uma postura mais revolucionária e acusava o velho PCB de ter se desviado do caminho comunista. Essa ruptura é importante porque mostra que a transformação do PCB não foi um processo silencioso ou consensual. Ela foi disputada desde cedo, e a acusação de reformismo acompanharia o partido por décadas.
Pouco depois, o golpe civil-militar de 1964 colocou essa estratégia à prova. Para muitos setores da esquerda, o golpe parecia demonstrar o fracasso da via pacífica. Afinal, se uma experiência reformista, nacionalista e popular podia ser interrompida pela força militar, então a aposta na legalidade e nas alianças institucionais parecia ilusória. Essa leitura levou diferentes grupos a defenderem a luta armada como resposta à ditadura. Foi nesse contexto que surgiram organizações guerrilheiras urbanas e rurais, muitas delas formadas por dissidentes do próprio campo comunista.
A direção do PCB, porém, não seguiu esse caminho. Mesmo perseguido e novamente jogado à clandestinidade, o partido recusou a luta armada e insistiu em uma estratégia de longo prazo, baseada na organização das massas, na recomposição do movimento sindical e na construção de uma frente democrática contra a ditadura. Essa escolha reforçou a imagem do PCB como uma força moderada dentro da esquerda revolucionária. O partido não abandonava formalmente o socialismo, mas se distanciava da ideia de que a derrubada da ditadura passaria por focos guerrilheiros ou ações armadas imediatas.
A principal expressão dessa estratégia foi o chamado frentismo democrático. Como a ditadura permitia apenas uma oposição legal controlada, o Movimento Democrático Brasileiro, o MDB, o PCB orientou muitos de seus militantes a atuarem dentro dessa estrutura. Era uma forma de participar da vida política possível, mesmo sob repressão. A atuação no MDB permitia organizar setores sociais, influenciar candidaturas, disputar sindicatos, fortalecer a oposição institucional e construir, aos poucos, uma frente mais ampla contra o regime militar. Em vez de enfrentar a ditadura pela via armada, o partido tentava corroer sua legitimidade por dentro das brechas legais existentes.
Essa escolha teve efeitos contraditórios. Por um lado, ela permitiu ao PCB manter alguma capacidade de intervenção política durante os anos de chumbo. A atuação no MDB contribuiu para fortalecer a oposição consentida, ampliar a presença de setores democráticos no parlamento e reorganizar o movimento sindical e popular em condições extremamente adversas. Por outro lado, essa mesma estratégia aprofundou o distanciamento entre o PCB e os setores da esquerda que enxergavam a luta armada como única resposta consequente à ditadura. Mais uma vez, o partido era acusado de moderação excessiva, reformismo e adaptação à ordem.
É importante destacar, porém, que a recusa da luta armada não poupou o PCB da repressão. O partido continuou sendo tratado como inimigo pelo regime militar. Após o AI-5, sua direção foi duramente perseguida, e uma parte expressiva de seu Comitê Central foi assassinada pela repressão estatal. Isso mostra que a moderação estratégica do PCB não significava aceitação pacífica da ditadura, nem garantia de segurança. O partido pagou um preço altíssimo por sua oposição ao regime, mesmo tendo escolhido uma linha diferente da luta armada.
No final dos anos 1970, essa trajetória de revisões, derrotas e adaptações culminou em uma nova crise interna. Luís Carlos Prestes, que voltava do exílio carregando ainda enorme peso simbólico na história do comunismo brasileiro, rompeu com a direção do PCB (então liderada por nomes como Giocondo Dias). Em 1980, sua “Carta aos Comunistas” denunciou o que ele considerava desvios de direita, reformismo e falta de democracia interna. Para Prestes, o partido havia se afastado de sua missão histórica e se acomodado a uma linha política incapaz de conduzir uma transformação revolucionária.
É necessário deixar claro que a legalização do PCB terá que ser uma conquista do movimento de massas e de todas as forças realmente democráticas em nosso País. Os trâmites legais junto ao Tribunal Superior Eleitoral estarão fadados ao fracasso, se a legalidade do PCB não se transformar numa exigência das massas, que, nas ruas, imponham sua vontade, como o fizeram em 45. A ditadura jamais nos concederá a legalidade sem luta; o que ela tenta, neste momento, é, aproveitando-se da crise interna do PCB, forçá-lo a um acordo. Acordo este que significaria um compromisso com a ditadura, incompatível com o caráter revolucionário e internacionalista do PCB, compromisso que colocaria o Partido a reboque da burguesia e a serviço da ditadura e inaceitável, portanto, à classe operária e a todos os verdadeiros revolucionários.
A ruptura de Prestes teve um significado profundo. Ela foi o encerramento simbólico de uma fase do PCB. O homem que havia dado ao partido sua maior projeção popular, que encarnava a memória heroica da Coluna Prestes, da ANL, da prisão e da resistência, já não reconhecia mais na direção partidária a continuidade do projeto revolucionário que havia abraçado. Sua saída abriu espaço para a consolidação definitiva de uma geração dirigente mais pragmática, mais institucional e mais disposta a adaptar o partido às condições da redemocratização.
3. Roberto Freire, “fim” do Partidão e nascimento do PPS

A ascensão de Roberto Freire precisa ser entendida dentro desse processo mais amplo de deslocamento do PCB. Ele não surge como uma figura externa que toma o partido de assalto, nem como um personagem desconectado da história anterior da legenda. Ao contrário, Freire expressa uma tendência que já vinha se formando dentro do Partidão: a valorização da atuação institucional, da negociação parlamentar, da construção de frentes políticas amplas e da adaptação às condições concretas da democracia brasileira. Se a geração de Prestes simbolizava a memória do comunismo revolucionário, a geração de Freire simbolizava a entrada definitiva do PCB na lógica da Nova República.
Roberto João Pereira Freire nasceu no Recife, em 1942, e iniciou sua trajetória política no movimento estudantil da Faculdade de Direito da Universidade Federal de Pernambuco. Sua origem política não era liberal, nem conservadora. Ele se formou no interior da militância comunista, em um Nordeste marcado por desigualdades profundas, conflitos agrários e mobilização popular. Ainda jovem, aproximou-se do PCB clandestino e atuou junto às Ligas Camponesas, oferecendo suporte jurídico e político a um dos movimentos mais importantes da luta pela reforma agrária no Brasil. Esse ponto é importante porque mostra que Freire não começou sua trajetória como um dirigente moderado da centro-direita. Ele vinha de uma tradição de esquerda, vinculada ao comunismo brasileiro e aos conflitos sociais do período anterior ao golpe de 1964.
Durante a ditadura, Freire seguiu a orientação mais ampla do PCB de atuar dentro das brechas institucionais permitidas pelo regime. Assim como outros comunistas, abrigou-se no MDB, o partido de oposição consentida pela ditadura, e construiu ali sua carreira parlamentar. Depois de disputar a prefeitura de Olinda em 1972, elegeu-se deputado estadual em 1974 e, posteriormente, deputado federal em 1979, já pelo PMDB. Esse percurso ajuda a explicar o tipo de dirigente que ele se tornaria. Freire não foi formado prioritariamente na clandestinidade revolucionária, na guerrilha ou na organização armada, mas na prática parlamentar, na negociação legislativa e na disputa institucional possível dentro de um regime autoritário em processo de abertura.
Com a redemocratização e a legalização do PCB em 1985, Freire voltou organicamente ao partido de origem e passou a ocupar um papel cada vez mais relevante. Na Assembleia Nacional Constituinte, consolidou sua imagem de parlamentar hábil, capaz de negociar com diferentes campos políticos. Essa característica foi decisiva para sua trajetória. Ele não se apresentava como o comunista intransigente, fechado em uma doutrina rígida, mas como um quadro político pragmático, capaz de circular entre setores progressistas e conservadores, dialogar com o Centrão e, ao mesmo tempo, defender pautas associadas à esquerda democrática. Essa combinação de origem comunista e prática institucional moderada transformou Freire em uma figura representativa do novo momento do PCB.
Sua candidatura à Presidência da República em 1989 expressou bem essa transição. O PCB, que havia sido durante décadas o símbolo da clandestinidade comunista, apresentou um candidato que não usava o tempo de televisão para defender a insurreição ou a tomada revolucionária do poder, mas para falar em democracia, modernização do Estado e reformas. Freire teve votação pequena, mas sua campanha tinha um sentido político maior: mostrar que o velho Partidão buscava um novo lugar no cenário democrático brasileiro. O partido ainda carregava a marca comunista, mas já tentava se apresentar como uma força de esquerda moderna, institucional e compatível com a democracia representativa.
(Uma dica: assistam ao Roda Viva de 1989 com o Freire. É um documento histórico de grande relevância em relação à dissolução do bloco socialista, o posicionamento dos comunistas e a enorme dificuldade de todos em entender o que estava se passando naquele momento)
Essa tentativa de reposicionamento, porém, foi atravessada por um acontecimento internacional decisivo: o colapso do socialismo real. A queda do Muro de Berlim, em 1989, e a dissolução da União Soviética, em 1991, abalaram profundamente os partidos comunistas do mundo inteiro. Para uma organização como o PCB, cuja história havia sido marcada desde os anos 1920 pela ligação com a Internacional Comunista, com Moscou e com a referência soviética, o impacto foi enorme. O modelo histórico que havia orientado o imaginário comunista durante boa parte do século XX entrava em ruínas.
Foi nesse contexto que Roberto Freire passou a defender uma ruptura mais profunda com a tradição marxista-leninista. Para ele, manter o partido preso ao velho modelo comunista seria condená-lo à irrelevância. O diagnóstico era simples, mas brutal: depois da queda do socialismo real, insistir na defesa da ditadura do proletariado, do modelo bolchevique e da centralidade soviética significaria transformar o PCB em uma peça de museu. A sobrevivência política exigiria abandonar o comunismo tido como “ortodoxo” e reconstruir a legenda em torno de outra identidade.
A referência para essa transformação vinha do eurocomunismo, especialmente da experiência dos partidos comunistas da Europa Ocidental. O caso italiano era particularmente importante, porque o Partido Comunista Italiano também passava por um processo de dissolução e reorganização. A ideia central era substituir o velho horizonte marxista-leninista por uma defesa do socialismo democrático. Isso significava aceitar a democracia representativa não mais como uma etapa provisória a ser usada taticamente até a revolução, mas como um valor universal. A democracia deixava de ser apenas um terreno de luta e passava a ser parte constitutiva do próprio projeto político.
Essa formulação parecia, para Freire e seus aliados, uma atualização necessária diante do novo mundo que surgia após a Guerra Fria. Mas, para os setores mais radicais do PCB, era uma rendição completa. A ala mais fiel à tradição comunista interpretava essa mudança como abandono da luta de classes, capitulação ao liberalismo e liquidação histórica do partido. O conflito, portanto, era uma disputa sobre o sentido de toda a trajetória do PCB. O partido deveria sobreviver mudando de natureza ou deveria preservar sua identidade comunista mesmo ao custo da marginalidade?
O momento decisivo desse embate foi o 10º Congresso do PCB, realizado em janeiro de 1992, em São Paulo. Ali se decidiu o destino do Partidão. A direção liderada por Roberto Freire defendeu a transformação do PCB em uma nova legenda, livre da foice, do martelo, do marxismo-leninismo e da referência direta ao comunismo. O resultado foi a criação do Partido Popular Socialista, o PPS. Mas esse processo foi profundamente contestado pela ala radical, que denunciou manobras internas para alterar o equilíbrio das votações e permitir que filiados formais e simpatizantes, sem vida orgânica real no partido, participassem das decisões.

Essa acusação é central para entender a ferida deixada por 1992. Nos partidos de tradição leninista, a militância orgânica tinha um peso muito particular. Não se tratava apenas de estar formalmente filiado em cartório, mas de participar da vida cotidiana do partido, atuar em células, contribuir financeiramente e assumir tarefas políticas. Ao abrir o processo decisório para um conjunto mais amplo de filiados e simpatizantes, a direção de Freire enfraqueceu o peso dessa militância tradicional, justamente o setor que mais resistia ao fim do PCB. Para os derrotados, isso foi uma inundação artificial do congresso, uma forma de liquidar o partido por meio de uma maioria construída burocraticamente (Curiosidade: na política fisiológica, esse movimento é muito comum, de filiações em massa para que as pessoas votem de acordo com determinadas lideranças políticas. Essa manobra é chamada de “contar garrafa”).
Sob protestos, a ala radical denunciou fraude, liquidacionismo e abandono da história comunista. Para esses militantes, o que ocorreu foi o roubo de um patrimônio político construído pela classe trabalhadora ao longo de décadas de perseguição, clandestinidade, prisões e mortes. O novo PPS herdou a estrutura legal, o fundo partidário, o tempo de televisão, a infraestrutura e o número eleitoral do antigo PCB. Já os comunistas, derrotados, precisaram iniciar praticamente do zero o processo de reorganização do Partido Comunista Brasileiro, que sobrevive até hoje, embora com atuação limitada e bem pequena.
Para Freire e seus aliados, no entanto, a leitura era oposta à dos comunistas. A criação do PPS teria sido um ato de coragem política. Em vez de preservar uma sigla condenada à marginalidade após o colapso soviético, a direção teria salvado a instituição, adaptando-a à democracia brasileira e ao novo cenário internacional. A pergunta que dividia o partido era, no fundo, uma pergunta sobre sobrevivência e identidade: vale mais preservar a coerência histórica, mesmo que isso leve ao isolamento, ou adaptar-se ao novo tempo para continuar existindo?
A criação do PPS não significou, de imediato, uma passagem completa para a direita. Nos primeiros anos, o partido tentou ocupar um espaço de centro-esquerda democrática, moderna e pragmática. A proposta era diferenciar-se tanto do PT, que crescia como principal força da esquerda brasileira, quanto do PSDB, que se consolidava como polo social-democrata e, posteriormente, caminharia para a centro-direita. O PPS buscava se apresentar como uma esquerda menos dogmática, mais institucional e mais aberta ao diálogo com diferentes setores da sociedade.
A filiação de Ciro Gomes foi a grande aposta eleitoral desse período. Ex-governador do Ceará e ex-ministro da Fazenda, Ciro oferecia ao PPS aquilo que o partido não possuía sozinho: densidade eleitoral, projeção nacional e capacidade de disputar a Presidência com alguma relevância. Suas candidaturas em 1998 e 2002 deram à sigla uma musculatura política que ela dificilmente teria sem uma liderança desse porte. Em 1998, inclusive, Roberto Freire foi vice na chapa de Ciro, o que mostrava a tentativa do partido de construir uma alternativa presidencial própria.

Lula e Ciro Gomes, então candidatos em 1998, denunciando a falta de debates na eleição presidencial.
Em 2002, o bom desempenho de Ciro no primeiro turno (ainda que tenha despencado na reta final) ajudou a reposicionar o PPS no cenário nacional. No segundo turno, o partido apoiou Lula contra José Serra. Com a vitória petista, o PPS ingressou na coalizão governista e Ciro Gomes assumiu o Ministério da Integração Nacional. Esse momento é importante porque mostra que o partido ainda não havia se definido como uma força antipetista. Pelo contrário, naquele contexto, o PPS aceitava compor com o PT e participar de seu governo. A legenda ainda se via, ao menos em parte, como integrante de um campo progressista mais amplo.
A relação com o lulismo, porém, durou pouco. Roberto Freire passou a se incomodar com a política macroeconômica do governo Lula e, principalmente, com a forma como o PT organizava sua base de apoio no Congresso. Havia também uma disputa concreta por espaço político. O PPS era uma legenda média, e Freire enxergava na máquina petista de articulação parlamentar uma ameaça à autonomia e ao crescimento do partido. A tensão se agravou no debate sobre o salário mínimo, em 2004, quando Freire liderou uma rebelião contra a posição do governo e defendeu um valor maior do que aquele proposto pela equipe governista. Esse conflito abriu uma crise interna. Freire queria que o PPS rompesse com o governo e entregasse seus cargos. Ciro Gomes, por sua vez, recusou-se a sair do ministério e acusou Freire de conduzir o partido de maneira autoritária e em direção à direita. A ruptura entre os dois foi dura, com Freire destituindo Ciro de funções na direção partidária e declarando o fim da relação política. Sem espaço, Ciro acabou deixando o PPS e migrando posteriormente para o PSB. Esse episódio foi decisivo porque encerrou a tentativa do partido de ser uma centro-esquerda com candidatura presidencial competitiva.
O escândalo do mensalão, em 2005, consolidou a ruptura com o PT e forneceu ao PPS uma nova identidade pública. A denúncia de compra de apoio parlamentar permitiu que Roberto Freire assumisse o papel de opositor moral do petismo. A partir daí, o partido passou a organizar sua imagem em torno do combate à corrupção e da crítica frontal ao PT. O que antes era uma disputa por espaço dentro do campo progressista passou a se transformar em antipetismo sistemático. Essa mudança se cristalizou em 2006, quando o PPS apoiou Geraldo Alckmin à Presidência em uma aliança com PSDB e PFL. A decisão representou uma virada importante. O partido que havia apoiado Lula no segundo turno de 2002 e participado do governo petista agora se alinhava ao principal bloco de oposição de centro-direita. Nos anos seguintes, esse movimento se repetiria. O PPS apoiaria José Serra em 2010, Aécio Neves no segundo turno de 2014 (o PPS apoiou Eduardo Campos e, posteriormente, Marina Silva no primeiro turno) e novamente Geraldo Alckmin em 2018. Aos poucos, a legenda deixava de tentar construir um campo próprio de centro-esquerda e passava a funcionar como uma linha auxiliar do tucanato.
Esse momento da trajetória é, portanto, o momento da metamorfose institucional mais explícita. Roberto Freire transformou o antigo PCB em PPS sob o argumento da modernização democrática e da superação do comunismo ortodoxo. Em um primeiro momento, tentou construir uma esquerda reformista, pragmática e não petista. Mas, diante dos conflitos com o governo Lula, da saída de Ciro Gomes e do impacto do mensalão, o partido reorganizou sua identidade em torno do antipetismo e da aproximação com o PSDB. A partir daí, a distância em relação ao antigo comunismo passava a ser também prática, eleitoral e programática. O partido que nascera como vanguarda revolucionária da classe trabalhadora agora se movia cada vez mais para a raia liberal do sistema político brasileiro.
Do PPS liberal ao Cidadania em crise
A partir da ruptura com o PT e da consolidação do antipetismo como identidade pública, o PPS entrou em uma nova fase. A legenda já não tentava mais ocupar aquele espaço original de uma centro-esquerda moderna, democrática e não petista. Aos poucos, passou a se aproximar de um liberalismo político mais amplo, que combinava discurso anticorrupção, defesa da responsabilidade fiscal, apoio a reformas de mercado e oposição sistemática ao campo petista. O partido ainda preservava, no nome, a palavra “socialista”, mas esse socialismo já funcionava mais como resíduo histórico do que como orientação programática.
Um dos elementos centrais dessa nova identidade foi o discurso da ética na política. Depois do mensalão, o PPS encontrou no combate à corrupção uma forma de reorganizar sua presença pública. Roberto Freire e outros quadros do partido passaram a se apresentar como críticos duros do sistema de cooptação parlamentar associado ao PT. Essa postura permitia ao partido se diferenciar moralmente do lulismo, mas também o aproximava de uma linguagem política que ganharia força crescente nos anos seguintes: a ideia de que a principal divisão política do país não era mais entre projetos econômicos, interesses de classe ou modelos de desenvolvimento, mas entre uma política “limpa” e uma política “corrompida”.
Essa identidade anticorrupção teve um de seus pontos altos na participação do PPS na aprovação da Lei da Ficha Limpa, em 2010. A legenda ajudou a sustentar uma pauta que impunha restrições a candidaturas de políticos condenados por órgãos colegiados. Naquele momento, o partido se apresentava como defensor de uma renovação moral da política brasileira. A pauta tinha apelo popular evidente e conectava o PPS a uma sensibilidade cada vez mais forte na sociedade, marcada pela desconfiança diante dos partidos tradicionais, pelo cansaço com escândalos e pela valorização de instrumentos punitivos como forma de depurar o sistema político.
O problema é que esse discurso, embora pudesse ser apresentado como defesa da ética pública, também ajudou a deslocar o partido para um terreno cada vez mais moralizante. A corrupção passou a ocupar o centro da interpretação política, muitas vezes substituindo o debate sobre projeto nacional, política econômica, desenvolvimento, direitos sociais ou organização do Estado. Esse deslocamento seria importante para entender a posição do PPS nos anos seguintes, especialmente durante a crise do governo Dilma Rousseff. Quando o antipetismo se intensificou socialmente, o partido já estava plenamente preparado para ocupar esse espaço institucional de oposição dura ao PT.
Durante o segundo mandato de Dilma, Roberto Freire identificou na sociedade brasileira um movimento anti-esquerda e anti-PT e o PPS acabou se colocando na linha de frente da articulação parlamentar pelo impeachment. A legenda passou a interpretar a crise política como a oportunidade de encerrar um ciclo político hegemonizado pelo PT. Com a queda de Dilma Rousseff, o PPS ingressou na base de sustentação do governo Michel Temer. Esse momento é decisivo porque torna explícito o abandono de qualquer resíduo programático ligado à tradição socialista. Roberto Freire assumiu o Ministério da Cultura, ainda que tenha deixado o cargo posteriormente em meio ao desgaste provocado pelas denúncias envolvendo o governo. Raul Jungmann, outro quadro histórico do partido, ocupou posições centrais, primeiro no Ministério da Defesa e depois no Ministério da Segurança Pública. O PPS deixava de ser aliado eleitoral da oposição ao PT e passava a integrar organicamente um governo comprometido com uma agenda liberal de ajuste fiscal e reformas pró-mercado de forma explícita.
Foi nesse período que a transformação ideológica se tornou mais evidente. O partido apoiou a PEC do Teto de Gastos, a Reforma Trabalhista e defendeu a Reforma da Previdência. Ou seja, a legenda que tinha origem em um partido criado para representar a classe trabalhadora passou a apoiar mudanças que enfraqueciam os serviços públicos, a proteção trabalhista e alteravam profundamente o sistema de seguridade social. A contradição histórica é evidente. O antigo partido comunista, que nascera sob a promessa de emancipação do proletariado, agora se alinhava a uma agenda de flexibilização das relações de trabalho, ajuste fiscal e fortalecimento das exigências do mercado financeiro.
Essa guinada não deve ser vista apenas como a expressão de uma mudança de posição em votações específicas, mas uma transformação mais profunda na forma como o partido passou a entender o Estado, a economia e os direitos sociais. A tradição comunista original via o Estado como terreno de disputa de classe e, em última instância, como instrumento a ser transformado radicalmente. A fase social-democrata ou eurocomunista ainda preservava alguma defesa de direitos sociais, democracia substantiva e ampliação da cidadania. Já o PPS da era Temer se aproximava de uma leitura liberal segundo a qual o problema central do Brasil era o excesso de rigidez estatal, o peso das garantias sociais e a necessidade de ajustar as contas públicas.
A mudança de PPS para Cidadania, em 2019, consolidou esse processo em termos simbólicos. Depois da eleição de 2018, o partido saiu enfraquecido, com bancada reduzida e ameaçado pelas cláusulas de barreira. A legenda precisava sobreviver. Mais uma vez, a resposta foi a reinvenção. Assim como o PCB havia sido transformado em PPS em 1992 para escapar da crise do socialismo real, o PPS foi transformado em Cidadania para escapar do desgaste da palavra “socialista” e se adaptar ao novo ambiente político brasileiro, marcado pela polarização, pela ascensão da direita bolsonarista e pela crise das legendas tradicionais.

A escolha do nome não foi casual. “Cidadania” é uma palavra mais ampla, menos ideológica, mais palatável para setores de classe média e para movimentos de renovação política. Ao abandonar a palavra “socialista”, a legenda eliminava um dos últimos vínculos simbólicos explícitos com sua origem comunista. O partido mantinha o número 23 e a estrutura jurídica, mas mudava sua embalagem pública. Era um rebranding em sentido forte: não apenas troca de nome, mas tentativa de reposicionamento político e mercadológico.
A nova Carta de Princípios do Cidadania consolidou essa identidade social-liberal. Na economia, o partido passou a defender com mais clareza o livre mercado, o ajuste fiscal, a responsabilidade nas contas públicas e reformas liberalizantes. Nos costumes, buscou preservar uma imagem progressista, favorável às cotas raciais, à criminalização da homofobia, à equidade de gênero e a pautas de direitos civis. Essa combinação é importante para entender o lugar atual do partido. O Cidadania passou a ocupar (pelo menos em teoria) o espaço do liberalismo progressista: liberal na economia, progressista em parte das pautas comportamentais e institucionalista na política.
Essa identidade também se combinou com uma tentativa de aproximação com movimentos de renovação política surgidos no período posterior a 2013. O partido buscou atrair quadros ligados ao RenovaBR, ao Livres, ao Agora! e ao Acredito. A ideia era se apresentar como uma legenda-plataforma, mais aberta, moderna, conectada à sociedade civil e menos presa às estruturas tradicionais da política partidária. O flerte com a candidatura de Luciano Huck à Presidência expressava esse mesmo movimento: a tentativa de construir uma alternativa liberal, moderada, midiática e antipolarização, capaz de ocupar o espaço deixado pela crise do PSDB e pelo desgaste do sistema político tradicional.
Mas essa tentativa de modernização encontrou limites muito rapidamente. A eleição de 2022 aprofundou a crise de sobrevivência do partido. Pressionado pela cláusula de barreira, o Cidadania foi obrigado a formar uma federação com o PSDB. A união era, em tese, uma saída institucional para preservar acesso a recursos, tempo de televisão e funcionamento parlamentar. Mas, politicamente, ela aprofundou dilemas internos. Parte do partido queria manter a aliança com os tucanos, reforçando uma posição de centro-direita e oposição ao PT. Outra parte passou a defender uma aproximação com o PSB e com o campo governista.
O resultado eleitoral foi ruim. O Cidadania elegeu uma bancada pequena de apenas 5 deputados, perdeu capilaridade e viu sua relevância nacional diminuir ainda mais. A federação com o PSDB, em vez de resolver a crise, tornou mais explícita a falta de rumo estratégico da legenda. O partido já não tinha identidade socialista, não tinha força própria de centro-esquerda, não tinha candidatura presidencial competitiva e tampouco conseguia se afirmar como protagonista do centro liberal. Restava-lhe negociar sobrevivência dentro de federações, alianças regionais e disputas internas pelo controle da máquina.

Bancada do PPS/Cidadania de 1994 a 2022. Nas eleições de 2022, o Cidadania disputou federado ao PSDB.
É nesse contexto que explode a crise contra Roberto Freire. Depois de décadas como principal condutor da transformação partidária, Freire passou a ser contestado por setores internos que o acusavam de governar a legenda com autoritarismo, centralização e apego ao controle burocrático. Em setembro de 2023, uma maioria do Diretório Nacional destituiu Freire da presidência e elegeu Comte Bittencourt em seu lugar. A crítica era clara: o partido precisava se libertar do comando pessoal de Freire e redefinir sua estratégia diante da crise da federação com o PSDB.

Freire, porém, não aceitou a derrota interna. Judicializou a disputa, conseguiu liminares para anular seu afastamento e mergulhou o partido em uma crise institucional prolongada. A disputa passou a se desenvolver nos tribunais, nas sedes partidárias, nas reuniões virtuais e nas manobras regimentais. Destaque para episódios em que Freire teria conduzido reuniões desligando microfones de opositores, cortando falas e aprovando decisões de forma arbitrária, transformando a vida interna do partido em uma sucessão de conflitos burocráticos e cenas de desgaste público.
A guerra interna chegou ao ponto de produzir dois congressos paralelos. De um lado, a ala ligada a Freire e Alex Manente defendia a continuidade da federação com o PSDB e a manutenção de uma posição mais alinhada à centro-direita, em oposição ao PT. De outro, a ala ligada a Comte Bittencourt buscava romper com os tucanos e construir uma aproximação com o PSB e com o campo governista. A disputa indicava dois caminhos distintos para a sobrevivência do Cidadania: continuar como satélite da centro-direita ou tentar se reposicionar em torno de uma nova articulação governista.
O ápice dessa crise ocorreu quando a Justiça do Distrito Federal suspendeu a eleição de Alex Manente e devolveu, ainda que de forma precária, o comando à ala de Comte Bittencourt. A cena é simbolicamente poderosa. O partido que nasceu como organização revolucionária, que atravessou clandestinidade, ditadura, cassação, redemocratização, queda do socialismo real e mudança de identidade, chega ao presente reduzido a uma disputa judicial sobre quórum, congresso, federação e controle da estrutura partidária.
Essa é a ironia final da trajetória. Roberto Freire justificou a liquidação do velho PCB em nome da democracia, da modernização, do pluralismo e da superação do dogmatismo comunista. Mas encerra sua longa trajetória política associado a práticas que seus próprios adversários internos descrevem como autoritárias, burocráticas e fisiológicas. O dirigente que dizia salvar o partido do passado soviético terminou prisioneiro de um labirinto institucional criado pela própria lógica de sobrevivência que ajudou a construir.
A história do Cidadania, portanto, é a história de uma metamorfose quase completa. O partido que nasceu para organizar a classe trabalhadora contra o capitalismo transformou-se em PPS, depois em Cidadania, abandonou o socialismo, aderiu ao liberalismo econômico, tentou se vender como plataforma moderna, aproximou-se do PSDB, flertou com movimentos de renovação e terminou mergulhado em uma guerra interna por comando, federação e sobrevivência eleitoral.
Ao final, o que resta é uma espécie de casca institucional de uma tradição histórica. A sigla mudou, o programa mudou, as alianças mudaram, o vocabulário mudou e o lugar no espectro político também mudou. O que permaneceu foi a estrutura: número eleitoral, fundo partidário, tempo de televisão, cargos, federações e disputas jurídicas. O antigo projeto de revolução deu lugar à administração da sobrevivência de uma forma fisiológica. E talvez essa seja a melhor síntese da trajetória que vai do PCB ao Cidadania: um partido que começou querendo transformar a sociedade terminou consumido pela tarefa de preservar a própria máquina1.
É importante destacar que o Cidadania hoje é reconhecido como herdeiro político do PCB pelo TSE, mas o PCB continua existindo, agora com o número 21, tocado pela ala que não aceitou as manobras e a liquidação do antigo Partidão. Nesse sentido, parte do PCB chegou ao fim depois da criação do PPS e, posteriormente, Cidadania, mas outra ala continua sobrevivendo aos trancos e barrancos com o PCB.