
O debate sobre o fascismo voltou ao centro da discussão pública nos últimos anos a partir da nova leva de governos de direita no mundo desde década passada, especialmente o governo de Donald Trump nos EUA, ou de movimentos que vem se fortalecendo na Europa (e depois em outras regiões) como reação à crise de 2008 e seus desdobramentos. Entretanto, analisar (e caracterizar) o fascismo acaba acarretando uma série de problemas.
Um problema comum envolve a análise centrada em chave majoritariamente conceitual, discutindo o que caracteriza o fascismo em seus aspectos teóricos e ideológicos, esquecendo ou negligenciando questões práticas. Essa análise de cunho mais teórico encontra eco em alguns setores mais liberais, que buscam se dissociar do fascismo em termos ideológicos, o que faz sentido, mas ignora relações não tão distantes assim entre liberais e fascistas, especialmente o papel que os liberais tiveram na ascensão do fascismo na Itália e do nazismo na Alemanha.
Quando deslocamos a análise para o terreno histórico e político concreto, a separação rígida entre liberalismo e fascismo começa a se tornar muito mais nebulosa. Devemos perguntar: nestes contextos históricos citados, elites políticas liberais contribuíram para viabilizar a ascensão do fascismo ao poder? A resposta, à luz da experiência italiana e alemã, é que sim.
Essa discussão não é irrelevante nem anacrônica. Ela importa porque revela como democracias liberais podem ser corroídas por dentro quando são percebidas como um obstáculo à preservação de determinados interesses econômicos e sociais. Também importa porque permite separar dois debates que frequentemente se misturam: de um lado, a banalização do termo fascismo, que de fato existe; de outro, a tentativa de apagar ou relativizar responsabilidades históricas muito bem documentadas.
Começando pela Itália, é importante lembrar que Benito Mussolini não surge como um corpo estranho ao sistema político. Ele inicia sua trajetória no Partido Socialista Italiano e rompe com a esquerda no contexto da Primeira Guerra Mundial, defendendo a entrada da Itália no conflito. No pós-guerra, em um ambiente marcado por agitação social, medo de uma revolução semelhante à Revolução Bolchevique e conflitos trabalhistas intensos, o fascismo se apresenta como uma força de ordem, ação e repressão direta à esquerda organizada.
Nesse contexto, setores liberais desempenham um papel decisivo. A ascensão de Mussolini não se deu por um golpe clássico, mas por meio de mecanismos legais e constitucionais. Em 1922, sua nomeação como primeiro-ministro ocorre dentro das regras formais do sistema. Uma figura central nesse processo é Giovanni Giolitti, uma das principais lideranças liberais da Itália depois da unificação. Em 1921, Giolitti inclui os fascistas em sua lista eleitoral, apostando que poderia neutralizá-los e diluir sua força política. O efeito foi exatamente o contrário: o fascismo foi legitimado institucionalmente e retirado da marginalidade.
Esse movimento revela algo importante. As elites liberais italianas temiam muito mais o socialismo, os sindicatos e a mobilização operária do que a violência fascista. A repressão sistemática promovida pelos camisas-negras contra trabalhadores e organizações de esquerda foi amplamente tolerada, quando não apoiada, sob a ilusão de que o fascismo poderia ser controlado e utilizado como instrumento de contenção social.
A imprensa liberal e setores intelectuais também tiveram papel relevante nesse processo. Jornais como o Corriere della Sera suavizaram a imagem de Mussolini, apresentando-o como um mal necessário diante da ameaça socialista. Intelectuais influentes, como Vilfredo Pareto e Benedetto Croce, em diferentes momentos, contribuíram para normalizar o regime nascente.
Na Alemanha, o percurso apresenta diferenças, mas a lógica é semelhante. A República de Weimar nasce em um contexto ainda mais adverso: derrota na Primeira Guerra, imposição das reparações do Tratado de Versalhes, hiperinflação, desemprego e radicalização política. A democracia alemã começa a ser desmontada por dentro antes mesmo da chegada de Adolf Hitler ao poder, com o uso recorrente de decretos de emergência e o enfraquecimento deliberado do parlamento por partidos conservadores.
A estratégia de “domesticar” a extrema-direita reaparece. Figuras como Franz von Papen (que depois virou vice-chanceler de Hitler) acreditavam que poderiam nomear Hitler chanceler e controlá-lo a partir de um gabinete dominado por conservadores. O Exército, por sua vez, via no nazismo uma oportunidade de rearmar o país e romper com as limitações impostas por Versalhes, tolerando ou ignorando a violência contra a esquerda.

Franz von Papen e Hitler
A crise de 1929 aprofunda esse quadro. Nesse novo contexto, o centro liberal se esvazia rapidamente e parcelas significativas de sua base social migram para forças que prometiam ordem, autoridade e enfrentamento direto ao movimento operário. A nomeação de Hitler não foi um acidente, mas o resultado de uma aposta consciente das elites políticas e econômicas da Alemanha na sua época.
O papel das elites econômicas alemãs completa o quadro. Inicialmente tolerantes à República de Weimar como forma de evitar uma revolução socialista, esses setores passam a ver a democracia como um obstáculo. O apoio financeiro ao Partido Nazista, inclusive com a consciência de que aquela seria “a última eleição por muitos anos”, mostra que não havia ingenuidade.
O que esses dois casos revelam é simples, mas incômodo para alguns liberais. Em momentos de crise profunda, setores liberais abandonaram seu compromisso com a democracia e colaboraram, de forma direta ou indireta, com a ascensão do fascismo. Isso não apaga as diferenças conceituais entre liberalismo e fascismo, mas mostra que essas diferenças não foram suficientes para impedir alianças políticas, legitimação institucional e apoio a tais regimes autoritários.
Reduzir esse debate a comparações abstratas ou a discussões simplistas sobre estatismo e mercado é perder de vista a complexidade histórica do fenômeno. Enfrentar essa história não é um exercício ideológico, mas uma condição necessária para compreender como democracias podem ser corroídas por dentro e como erros semelhantes podem se repetir sob novas formas.
Referências e indicações de leitura:
Donald Sassoon - Mussolini e a ascensão do Fascismo
Richard J. Evans - A chegada do Terceiro Reich
Robert Paxton - A Anatomia do Fascismo
Sobre as relações de Pareto e o Fascismo, fica a indicação do artigo Vilfredo Pareto e o Fascismo